Prosimetron

Prosimetron
Prosimetron: termo grego que designa a mistura de prosa e verso.

sábado, 9 de outubro de 2010

Máxima epicurista


Marcel Pistre (1917-1979) - Sem título, 1966

«Vazio é o discurso do filósofo se não contribui para curar a doença da alma.»

Novo local de peregrinação


O novo local de peregrinação: Senhora do Vencimento. É uma pequena localidade entre o Pinhão e S. João da Pesqueira, no Alto Douro Vinhateiro.
O Bispo de Fátima-Leiria começa a ter preocupações, dado que pode suplantar Fátima, se os próximos tempos continuarem de crise...
Aqui fica o registo (eu já tomei nota). Nunca se sabe o dia de amanhã!

Outono!

A nossa vinheta é uma homenagem ao Outono, estação de que ando a aprender a gostar. Contribuem para o encantamento as cores quentes com que as árvores se vestem e despem.
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Winslow Homer (1836-1910), Autumn, 1877, detalhe

Óleo sobre tela, National Gallery of Art, Washington, EUA


1045
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A Natureza usa o Amarelo
Mais raramente do que outro Matiz.
Poupa-o o mais que pode para os Poentes
Pródigos em Azul

Desperdiçando o Escarlate, como Mulher
Economiza o Amarelo
A não ser escassa e selectivamente
Como as palavras de um amante.

Emily Dickinson, Poemas e Cartas, Lisboa: Cotovia, 2000, p. 103 (Tradução: Nuno Júdice)

Frei Fernando Ventura

Tornou-se em poucos dias, justificadamente, uma celebridade em terras lusas depois desta entrevista na SicNotícias. Verdades que doem como pedras que caem sobre nós.

Liza

Ontem (ou anteontem? Não tenho a certeza) foi entrevistada pelo Larry King na CNN. Deslumbrante na sinceridade e na simplicidade. E, para mim, a melhor parte do filme O Sexo e a Cidade 2 é a notável interpretação que ela faz do hit de Beyonce, Single Ladies. Vejam-na a cantar e a dançar aos 64 anos:

Citações - 124

(...) se é fundamental a aprovação do Orçamento do Estado, também é importante o Governo explicar, bem, porque se chegou a esta situação e o que falhou, depois de garantir que as medidas antes tomadas eram suficientes.

José Carlos de Vasconcelos, na Visão.

Adágios e provérbios - 1


http://www.ruadireita.com/info/img/o-pao-e-os-seus-mitos.jpg

Trigo, e pão
Aceita na ocasião,
Bom, e mau, quanto te dão.
In: Banquete esplêndido de iguarias diversas, adágios e provérbios [...]. Lisboa: Apenas Livros, 1999.
2.ª ed. de um folheto de 1668
.

O último Vargas Llosa que li


Lisboa: Dom Quixote, 2003
Mario Vargas Llosa conta as histórias de Flora Tristán (1803-1844) e do seu neto, Paul Gauguin (1848-1903), que nunca conheceu. Flora Tristán foi uma feminista francesa, filha de um oficial do exército espanhol que serviu no Peru. Membro da alta sociedade francesa, abdicou dessa sua vida para combater as injustiças do mundo e tentar criar um Paraíso para todos. Gauguin deixa a sua vida de corretor de sucesso e parte para o Taiti à procura de um nova vida, de um Paraíso primitivo, que nos deixou em telas. São estas duas histórias de procura de dois sonhos - «alcançar um Paraíso onde seja possível a felicidade para os seres humanos» (contra-capa da obra) - que Vargas Llosa conta, em paralelo, no seu livro. «Onde se encontra o Paraíso? Na construção de uma sociedade igualitária ou no retorno ao mundo primitivo?»
Este livro deve ser lido acompanhado das reproduções das obras de Gauguin. Seria uma boa ideia fazer uma edição ilustrada.

«Sentia-se tranquila, com forças para enfrentar os obstáculos que lhe sairiam ao caminho. Como naquela tarde em Saint-Germain, dez anos atrás, na primeira reunião dos sansimonianos a que assistira, quando ao ouvir Prosper Enfantin a descrever o casal-messias que redimiria o mundo, prometera a si mesma, com força: "a mulher-messias serás tu".» (p. 13)


Paul Gauguin - A visão depois do sermão, 1888

«A que mãos teria ido parar A visão depois do sermão? No leilão do Hotel Drouot no domingo 22 de Fevereiro de 1891 para reunir fundos que te permitissem a primeira vinda a Taiti, A visão depois do sermão foi o quadro pelo qual se pagou cerca de 900 francos. Em que sala de jantar burguesa parisiense languesceria agora?» (p. 197)



Paul Gauguin - O feiticeiro de Hiva Oa, 1901

«Se o que Tioka dizia era exacto, O feiticeiro de Hiva Oa tinha saído mais ou menos como o conceberas, apesar de o teres pintado quase todo o tempo às cegas, com pequenos intervalos em que a luminosidade do dia, o teu voluntarioso esforço ou o deus menor compadecido te aclaravam a visão e, por uns minutos, podias corrigir pormenores, acentuar ou debilitar as cores. Às vezes, o tremor da tua mão era tão forte que tinhas que deitar-te um bocado na cama, até que o teu corpo serenasse e aqueles incontroláveis movimentos dos teus músculos cessavam. Só tinhas pintado as obras-primas nesse estado de incandescência, Kobe. Seria O feiticeiro de Hiva Oa uma obra-prima? Se os teus olhos pudessem ver a tela como devia ser, mesmo que fosse por uns segundos, sabê-lo-ias. Mas ficarias sempre com a dúvida, Kobe.» (p. 293)

Elegâncias - 51

Para a Primavera de 2011 - 1


Red Woven Leather and Suede Platform
(para Miss Tolstoi, apesar da mudança de indumentária)


Gray Fishnet-Pattern Bootie


Metallic Gold Python Bootie
retirados de: http://rawshoes.wordpress.com/category/uncategorized/page/23/

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Novidades - 149 : Ainda o Centenário...

e a perspectiva que faltava: a astrológica. Acho que só faltava mesmo esta, depois da avalanche editorial dos últimos meses- romances, ensaios, memórias, álbuns de fotos e de postais, catálogos de exposições, revistas facsimiladas e dvd's.
Quanto a este livro em particular, socorro-me da nota editorial: " Este livro propõe, através da Astrologia Mundana, o ramo da Astrologia que estuda os eventos políticos, económicos e sociais, explorar este período da História de Portugal. Que configurações astrológicas estão associadas ao Regicídio? Em que contexto planetário se deu a implantação da República?"
Acho que é este o volume mais interessante no meio de tudo o que tem saído, este e um que comprei hoje e de que falarei amanhã.


O Regicídio e a República 1908/1926 À Luz da Astrologia
, Helena Avelar, Maria Manuel Xavier e Luís Ribeiro, Set. 2010, 144p, Vogais&Companhia.

Um quadro por dia - 96

Agostinho José da Mota (ou Motta) (1821-1878), Natureza-morta com ovos, pão, queijo e vinho, 1858, óleo sobre tela, 100x74cm, Museu Imperial de Petropólis, Brasil.

Neste Dia Mundial do Ovo, os ditos tinham que aparecer por aqui. E surgem através da paleta do maior paisagista e autor de naturezas-mortas que o Brasil teve no séc.XIX.
A benefício de uma certa prosimetronista ( e de quem os vê depois ), sempre acrescento que as suas telas de flores e frutos são magníficas...
Com a diferença de vermos frutas tropicais que os pintores europeus raramente retrataram.

In Memoriam - John Lennon

Mother é uma das canções de Lennon que me faz sorrir!

O dia é dele

Foi Liu Xiabo o escolhido pelo Comité Norueguês para receber o Nobel da Paz. Assim se lembra ao Mundo que a dissidência política na China paga-se com longas penas de prisão. Tanto e tão rápido desenvolvimento económico e tão pouco respeito pelos direitos e liberdades fundamentais...

Mais uma pérola...

da autoria do deputado socialista Ricardo Gonçalves:

Se abrissem a cantina da Assembleia da República à noite, eu ia lá jantar. Eu e muitos outros deputados da província. Quase não temos dinheiro para comer.

( no Correio da Manhã )

Têm sido tantas e tão boas as declarações deste senhor deputado nos últimos tempos, que quase começo a dar razão a Maria José Nogueira Pinto que lhe chamou um dia na Assembleia "palhaço permanente".

Auto-retrato(s) - 60

Max Beckmann, Auto-retrato com Smoking, 1927, óleo sobre tela, Museu Busch-Reisinger, Universidade de Harvard, EUA.

Esta tela de Beckmann também poderia ter acabado numa das várias fogueiras que se fizeram no início do III Reich para queimar a "arte degenerada", mas foi salva e levada para os EUA onde está desde então.

Margaridas


Jean-François Millet (1814-1875) - Le Bouquet de Marguerites
Pastel, ca 1871-1874
Paris, Musée d'Orsay

«A incerteza é uma margarida cujas pétalas nunca se acabam de desfolhar.»
Mario Vargas Llosa

Bom dia!

E esta fabulosa We're All Alone que Rita Coolidge gravou em 1977 está de acordo com uma manhã de "chuva e vento fortes" para citar o Instituto Nacional de Meteorologia.

PENSAMENTO(S) - 141


Hoje em dia nadamos na mentira do politicamente correto.


Frase do filósofo belga Marc Richir na Philosophie de Setembro.

Poemas - 15

OS CÃES DO MAR

Dizem que há ondas de dez metros e eu venho
a um paredão da costa para olhá-las
Venho para ver a precipitação do mar e como seu fundo mais idêntico
nós a passarmos,
nós na teimosia de sermos de passarmos como os cães marítimos,
um pouco alheadamente, tresmalhados, e muito sem um aceno, um pacto;
Nós a passarmos em frente às grandes paredes maciças e moventes
surpresos, suspensos, presos à linha da sentença que se move,
precipita
Nós sem podermos ceder a atenção a mais
que a este medo, ou à espécie de júbilo que nos tresmalha
como aos tais cães do mar


Maria Andresen, na Relâmpago Nº25, Outubro de 2009

Elegâncias - 50


Beth Ditto & Jean Paul Gaultier - sem comentários!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Boa noite!

Que é certamente de festa em casa do John Cougar Mellencamp que faz hoje 59 anos. Esta Hurts So Good é de 1982, ano em que ele começava a ser uma estrela na cena musical norte-americana e internacional, tinha muito cabelo e ainda nem tinha acrescentado o apelido Mellencamp. E eu sabia a letra toda...

Dia Nacional dos Castelos

Neste Dia Nacional dos Castelos lembrei-me deste ( o de Alvito ) por uma razão muito simples: nunca o visitei, e ando a pensar nisso há algum tempo e por várias razões. Mais uma resolução para 2011...- mas esta é fácil de concretizar.

Frutas - 29


Irving Penn (1917-2009) - Still life with watermelons
Fotografia, 1947

Irving Penn faleceu faz hoje um ano.

Finalmente!



Mário Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura!

«Mario Vargas Llosa nasceu em 1936, em Arequipa, no Peru. Professor universitário, académico e político, é uma personalidade intelectual de grande vulto e um dos mais importantes escritores da América Latina e do mundo. Da sua vasta obra, destacamos A Cidade os Cães (Prémio Biblioteca Breve, 1962; Prémio da Crítica Espanhola, 1963), A Casa Verde (Prémio Nacional do Romance do Peru, Prémio da Crítica Espanhola, Prémio Rómulo Gallegos, 1963), Conversa n' A Catedral (1969), Pantaleão e as Visitadoras (1973), A Tia Júlia e o Escrevedor (1977), A Guerra do Fim do Mundo (1981; Prémio Ritz-Hemingway - 1985), História de Mayta (1984), Quem Matou Palomino Molero? (1986), O Falador (1987), Elogio da Madrasta (1988), Lituma nos Andes (Prémio Planeta, 1993), Como Peixe na Água (1993), Os Cadernos de Dom Rigoberto (1997), Carta a uma Jovem Romancista (1997), A Festa do Chibo (2000), O Paraíso na Outra Esquina (2003) e Travessuras da Menina Má (2007).» (Da nota distribuída pela D. Quixote.)
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Sou fã de Vargas Llosa desde que li Conversa na catedral.
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«Escreve-se para preencher vazios, para fazer separações contra a realidade, contra as circunstâncias. » (M. V. L.)
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«A literatura não é algo que nos faça felizes, mas ajuda-nos a defendermo-nos da infelicidade.» (M. V. L.)

No centenário de Mark Twain


Irmãos Unidos


Foto Eduardo Portugal, s.d.
Arq. Fot. CML, PT/AMLSB/AF/POR/060322

Os Irmãos Unidos, no Rossio (Lisboa), era um restaurante que pertencia ao pai de Alfredo Guisado. Aqui se reunia a geração do Orpheu, e para ele, Almada Negreiros pintou o retrato de Fernando Pessoa, em 1954, que presentemente se encontra na Casa Fernando Pessoa. Dez anos mais tarde, pintou uma réplica para a Fundação Gulbenkian.
O restaurante encerrou em 1970, tendo a sua área sido anexada pela Camisaria Moderna. Ainda existe um resquício do restaurante com o nome de Adega Irmãos Unidos, na Praça da Figueira, 2.

Pensamento


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Fico pensando, às vezes, por momentos,
Que a alma dentro em nós, é uma fonte
Onde bebem os nossos pensamentos!
[...]

Alfredo Guisado
In: Distância. Lisboa: Livr. Ferreira, 1914

Para Jad, porque há dois dias se falou de Alfredo Guisado.

No Centenário - 2

- O Infante D.Manuel, futuro D. Manuel II. (Adenda- Solucionado o desafio infra, aqui fica a informação em falta: o retrato é da autoria de Amadeo de Souza-Cardoso, o maior, e o mais monárquico, pintor português das primeiras décadas do séc.XX, e está exposto no Museu Amadeo Souza-Cardoso em Amarante. )

Foi com surpresa que vi ontem, e graças ao aviso de um prosimetronista, o documentário de Eduarda Maio que passou depois do noticiário das 20h na RTP1, em horário nobre (!), sobre o último Rei de Portugal.
Um gesto bonito para com o principal vencido do 5 de Outubro de 1910, e onde foi focado sobretudo o seu exílio inglês, salientando a imensa generosidade de D.Manuel II até ao fim dos seus dias para com os seus conterrâneos mas também para o povo que o acolheu. E não posso deixar de mencionar a participação de Clara Macedo Cabral, amiga de vários prosimetronistas e radicada em Londres, que falou pela Maggs, os conhecidos livreiros que forneceram ao soberano exilado os preciosos volumes do séc.XVI que estão hoje em Vila Viçosa.
Parabéns à RTP, e espero que não tenha havido indigestões por parte dos mais fundamentalistas, de um lado e doutro das barricadas...


P.S.- Um doce, ou melhor uma caixa para não me chamarem sovina, a quem adivinhar quem pintou o retrato que está acima. Uma pista- é um grande nome da pintura portuguesa.

1945 : Perry Como

A 7 de Outubro de 1945 era Perry Como o campeão de vendas com esta fabulosa Till The End Of Time.

Um quadro por dia - 95

Gari Melchers (1860-1932), Mother and child, 1904, óleo sobre tela, Museum of Fine Arts, Boston.

Embora menos conhecido que os seus contemporâneos John Singer Sargent ou Mary Cassatt, Melchers é um pintor norte-americano que merece atenção. Apesar de ter começado a minha procura de uma tela maternal para hoje na Velha Europa, desde logo uma das várias mães pintadas por Renoir, foi Melchers quem captou a minha atenção.

As primeiras chuvas II

As primeiras chuvas no Jardim Botânico quando procurava os tons de Outono!


Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal



Laura Fygi - Les Feuilles Mortes

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Boa noite!


Gustave Moreau (1826-1898) - Salomé (pormenor), 1874-1876

SALOMÉ

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro! A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...

Lisboa 1913 - novembro 3.

Mário de Sá-Carneiro
In: Poemas completos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001


Gustave Moreau (1826-1898) - Salomé (pormenor), 1876

BALADA DE SALOMÉ

Meus bailados endoidecem,
Adormecem,
São riscos, que os meus sentidos
Com tules de ânsia vestidos,
Traçam no ar...
Endoidecem...
Plumas que caem no mar...

Anda ao redor do meu Corpo,
Triste, exangue...
Sou uma bruma de mim...
Sou uma gota de sangue
Numa espada de marfim...
Dedos de silêncios velhos...
Breves sombras do meu Corpo
A dançarem nos espelhos...

Meus olhos, portas abertas
E desertas,
Portas para jardins pagãos...
Leves repuxos de cores...
São conventos profanados
Onde morreu uma freira...
E são palcos, minhas mãos,
Onde meus dedos-actores
Andam cantando bailados
Duma outra bailadeira...

Minha sombra, voz que escuto
Numa sala dum castelo.
Sonho de Mim. Meu cabelo,
Caudas de faisões de luto
Em parques de outros Orientes...
O meu Corpo, um girassol
Virando a todo o momento
Para o Sol
Dos meus sentidos doentes.

Sou o talismã dum mago.
E são meus olhos inquietos,
Muito pretos,
Cabeças dentro de pratos...
Sou silêncios debruçados,
Gritos de mim, ecos, tudo...
Os meus bailados são patos
Ao longe, junto dum lago,
Laços de sangue, pintados
Num pescoço de veludo...

Alfredo Guisado
In: Tempo de Orfeu. Coimbra: Angelus Novus, 2003


Poemas - 14


GEOLOGIA


Dentro da pedra, o fóssil de uma rosa levanta

a margem negativa dos ramos, abre os seus pistilos

mais longos, onde se interrompe uma geração de instantes

que nos recorda o voo antigo das abelhas.


Caídas, as folhas descrevem-nos o estremecimento

dos enxames, sob a brisa que chega com os dedos,

margem levíssima abandonada pelos músculos, ar

que sustentou a sua haste invisível.


Podemos unir, devagar, a nossa fronte aos espinhos

para que nela apenas continue um círculo de sangue

legado por ninguém, a clara seiva que percorre

a mesma flor: gesto frágil da terra.


Fernando Guimarães, Algumas das palavras- Poesia Reunida 1956-2008, Edições Quasi, 1ªed, Dezembro de 2008.

A arte do retrato - 5

Brassaï (1899-1984), Anais Nin, 1923.

Estava na altura de aparecer um retrato fotográfico nesta série. Escolhi o maior fotógrafo húngaro, embora grande parte da sua vida tenha decorrido em França, do século passado e um dos seus retratos que julgo mais impressivos: o da escritora Anais Nin, cuja vida sob o signo da liberdade sempre me fascinou.

Reitoria da Nova


1959 : Bobby Darin

A 6 de Outubro de 1959 era Bobby Darin quem dominava os tops com esta Mack The Knife.

A Coisa Pública em exposição


Esta exposição funciona em dois pólos: um na Assembleia da República, o outro na Biblioteca Nacional de Portugal.

Elegâncias - 49


Ontem e hoje tomei banho com este sabonete - oferta de um cidadão a esta cidadã.
Cópia de um sabonete feito há 100 anos pela Ach. Brito.

O Início

UPPHAF
(O Início)

1
De antanho a era
em que o vazio existia,
nem areia ou mar
nem ondas revoltas;
por forjar a Terra,
Por cobrir o Céu:
um abismo aberto,
sem folha de relva.

2
Os Grandes Deuses então
deram início à labuta,
o maravilhoso mundo
mui bem construíram.
Vindo do Sul, o Sol
dos mares saído
reluzia sobre a relva
verdejando nas manhãs.

(...)

Começa assim, com estas estrofes, a Lenda de Sigurad e Gudrún, de J. R. R. Tolkien. Do autor li O Senhor dos Anéis e o Hobbit.

J. R. R.Tolkien, A Lenda de Sigurd e Gudrún, Lisboa: Edições Europa-América, 2009, p. 59 (tradução de Rita Guerra)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Efemérides

Medalhão evocativo do nascimento de Luísa Todi (Setúbal, Rua da Brasileira)


Quando vimos o nosso nome ser invocado para ilustrar, como efeméride, um dia do calendário, sentimos que estamos mais perto da morte do que da vida. Para mais que, tendo tido o cuidado de percorrer o blogue, foi o único vivo avocado para lembrar a passagem de uma data. E foi evocado, pela pena de um desconhecido, num blogue de um aparente "autor anónimo" ou, pelo menos, a coberto de um pseudónimo, que não consigo identificar.
Aconteceu para lembrar a passagem do dia 1 de Outubro.... o outro nome recordado, para esse dia, foi o de Luísa Todi, que morreu a 1 de Outubro de 1833.

Entretanto, no Brasil houve eleições.


Apurados os votos, terá de haver segunda volta para a Presidência do Brasil. Uma injustiça para Dilma Roussef, que trocou os óculos por lentes de contacto, aplicou Botox, fez um lifting e até foi à televisão mostrar que sabe cozinhar, pelo menos omeletes...

Citações - 123


Tomem nota da data: 29 de Setembro de 2010. O dia em que foi declarada a falência oficiosa do Estado Português, tal como nos habituámos a vê-lo.


Miguel Sousa Tavares
, a propósito do Plano de Austeridade anunciado por Sócrates no passado dia 29, in Certidão de óbito, no Expresso.

O meu 5 de Outubro

É o 5 de Outubro de 1143, dia em que em Zamora decorreu a assinatura do tratado homónimo celebrado entre Afonso Henriques de Portugal e o seu primo Afonso VII de Castela e Leão, e que consagrou a independência portuguesa. Foi há 867 anos.

1910 : Harry McDonough

Nos Estados Unidos, a 5 de Outubro de 1910, era Harry McDonough o cantor campeão de vendas. Fiquemos com esta Will You Love Me In December As You Do In May, escrita curiosamente pelo mais divertido Mayor que a cidade de Nova Iorque já teve: John J.Walker.

Dia Mundial da Arquitectura

- Rotonda.
- Villa Cornaro.

Foi ontem. Mas ficou esquecido entre a euforia centenária de uns e as mágoas de outros... :)
Lembro hoje o dia reservado à nobre e antiga arte, com recurso a um dos meus preferidos mestres-arquitectos de todos os tempos: Palladio, o grande mestre do século XVI.
As casas que desenhou são milagres de pedra: na resistência ao tempo e ao gosto, na inserção na paisagem, na harmonia das formas. Inveja é sentimento que não me costuma habitar, mas relativamente a uma casa palladiana, abro uma excepção...

Lembrando Alfredo Keil

MR já colocou a Portuguesa. Este apontamento é só para lembrar o homem que compôs a Portuguesa, Alfredo Keil (1850-1907).
De descendência alemã, Alfredo Keil estudou música e desenho em Nuremberga. Pintou, ilustrou, escreveu poesia, da qual apenas conheço o livro "Tojos e Rosmaninhos", e foi músico. Desta última faceta destaco também uma das suas óperas, D. Branca, já se focou no Prosimetron aquando da sua representação no S. Carlos, no passado dia 29 de Setembro. Aqui fica um traço da sua sensibilidade.
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Alfredo Keil, O Aterro em 1881; no cais do Tejo,
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Óleo sobre madeira, 92 x 154 cm, Museu do Chiado, Lisboa, Portugal


Alfredo Keil - L'Abime Op. 14 No. 1

No Centenário - 1


A revolução republicana significou uma mudança de gerações na elite.Não significou uma maior participação da população. Sob o domínio do Partido Republicano, houve menos eleitores e menos votantes do que antes de 1910. Nos cadernos eleitorais da república, em relação à monarquia, diminuíram os trabalhadores manuais. De resto, pouco mudou. Para quem queria contactar a administração, continuaram a ser precisos empenhos e favores junto de uma elite de homens instruídos e da classe média. A polícia tratou sempre a população mais pobre com brutalidade. Às mulheres, o regime negou sempre qualquer estatuto político.
A I República, sem sufrágio universal, sem eleições justas e sem rotação pacífica no poder, não faz parte da linhagem da atual democracia. Também não foi equivalente ao Estado Novo, por lhe faltar uma ideologia de rutura com o liberalismo e uma máquina de repressão legal ao mesmo nível. Na década de 1920, afastado Afonso Costa, os novos líderes do Partido Republicano, como António Maria da Silva, permitiram-se uma maior tolerância, embora sem abrirem mão do poder. Mas na conjuntura do pós-guerra, com a emergência do comunismo e do fascismo e uma grande contenção financeira, que liquidou o investimento público, essa nova política não deu origem a uma "Regeneração" como a de 1851, mas à cisão final do Partido Republicano, abrindo a porta à Ditadura Militar (1926-1933).
Para essa transição, contou o ambiente de guerra civil gerado pelo domínio exclusivista e arbitrário do Partido Republicano, que tornou aceitável a repressão e o uso da violência contra adversários políticos. Contou também o modo como o domínio radical pôs em causa, pelas reações que provocou, a hegemonia política e cultural da esquerda que vinha do século XIX. Foi sob a república que emergiu uma nova cultura de nacionalismo tradicionalista, que não existia com significado antes de 1910, e que constituiria o oxigénio intelectual do salazarismo. A República não " justifica " o Estado Novo, mas explica-o.


Estes são os 3 últimos parágrafos do notável ( não exagero no adjectivo) ensaio de quase 3 páginas que Rui Ramos, que nem sequer é monárquico, escreveu no Expresso intitulado A Iª República como objeto histórico
.
Para mim, mesmo deixando de parte as minhas simpatias políticas, é muito bom ver alguém que contraria a "cartilha" ensinada durante décadas, e ainda foi o meu caso no ensino secundário em meados dos anos 80, de que a Iª República teria sido praticamente uma era de "vinho e rosas" infelizmente sufocada pelos militares reaccionários que entregaram o poder posteriormente a Salazar. A verdade histórica, como Rui Ramos bem demonstra, é muito mais complexa do que isso. Mas fico à espera que alguém faça a contradita: que venha dizer e demonstrar que Rui Ramos mente, omite ou exagera.
Se bem que, como viram e ouviram nos últimos tempos, até o Prof.Rosas já tem um discurso mais matizado...

1910 - 23


Capa de Alberto Sousa.