Barcarena: Manuscrito, 2024.
«No seu discurso de tomada de posse [como ministro das Finanças], no qual revelou que só aceitou o cargo com grande relutância e sacrifício, [Salazar] sublinhou: "Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando chegar à altura de mandar." Estava forjada a imagem do humilde professor universitário que não gostava de política, e que só aceitava o cargo por dever e á custa de todos os sacrifícios pessoais. No entanto, a realidade seria bem diferente e Salazar já tinha todo um projeto político e preparava-se para tomar o poder e o implantar.» (p. 22)
«Sob a égide do corporativismo, o Estado Novo irá acabar com o sindicalismo livre e o direito á greve, reprimindo as lutas operárias e perseguindo os seus dirigentes. São criados os Sindicatos Nacionais, de inscrição obrigatória e quase sempre de base regional e profissional, controlados pelo governo e sob tutela do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência (INTP), pertencente ao Subsecretariado de Estado das Corporações. As direções destes sindicatos estavam sujeitas a homologação governamental, que as podiam demitir. Estava esvaziada toda e qualquer capacidade reivindicativa do movimento operário. Além disso foram criados os grémios patronais da indústria, do comércio e da lavoura, uma forma de organização corporativa por parte dos patrões; e as Casas do Povo e dos Pescadores, dirigidas pelos grandes proprietários ou pelas autoridades portuárias, sob controlo do INTP, acabaram por servir como formas de enquadramento político-ideológico da população rural e piscatória.» (p. 25)
Ainda a procissão vai no adro...

8 comentários:
Aqui com a neve , genial para ler.
Muito clara a situação.
Bom dia!
Um abraço
Integrado (?) numa colecção prestigiada (Vida Quotidiana) deve ser bem interessante...
Bom dia.
Que medo... Bom dia!
Não faz parte dessa col. da Livros Brasil, mas para já estou a gostar. Uma boa síntese .
Bom dia!
Há gente que não valoriza o que foi feito nos últimos 52 anos, que foi feito de bom. Podia ter sido feito mais ou melhor? Claro! Mas também podia ter sido pior...
Bom dia para todos.
Obviamente. Veremos Domingo como corre.
De facto, encontramos, tanto nas páginas deste (muito) curioso trabalho como nos capítulos de outros volumes, igualmente indispensáveis, a análise das lentas mutações da cinzenta sociedade salazarista.
A saborosa "narrativa" de Marina TAVARES DIAS, da qual o seu marcante "álbum" intitulado "Lisboa nos Anos 40, Longe da Guerra" (Quimera, 2.ª ed., 2005) constitui um exemplo eloquente da cuidada "iconografia olisiponense", não esquece a reprodução de duas expressivas fotos (pp. 108 e 109), que perpetuam as imagens de um "vendedor de flores de papel no Bairro Alto e moços de padeiro nas Avenidas Novas".
Há, aliás, algo de "visão documental", próxima das concepções neo-realistas, na seguinte descrição de Marina TAVARES DIAS (p. 108):
"O recurso à venda ambulante e à entrega de géneros ao domicílio fazia parte dos hábitos de consumo de todos os Lisboetas. Pelas ruas, inúmeros pregões anunciavam quase tudo o que era indispensável à alimentação quotidiana: leite, peixe, legumes, azeite, fruta ou até pratos confeccionados, como a fava-rica ou o mexilhão cozido. Também os pequenos luxos podiam mercar-se barato e à porta: consertos em tesouras ou panelas, lavagem de roupa, muitas vezes ainda 'fora de portas', jornais acabados de chegar à saca do ardina, água de Caneças, morangos de Sintra. É na década de 40 que a Cidade dos pregões começa a morrer, para dar definitivamente lugar à venda de bens embalados e homogeneizados."
Eram, com efeito, "personagens e cenários" de um País sombrio e de chocantes contrastes, em que os elementos do Povo Trabalhador dificilmente podiam entrar no "Hall" de um Hotel do tipo "AVIZ" (Av. Fontes Pereira de Melo)! De acordo com a Obra citada (pp. 115 e 116), "o Aviz, único da categoria 'Luxo' em Lisboa (a atribuição de estrelas ainda não existia), seria demolido em 1962"; e o próprio cineasta CECIL de MILLE "terá dito que se podia filmar um épico na casa de banho da 'suite' presidencial"...
Sinais dos tempos, que anunciavam o começo de um confronto entre alguns dos movimentos patrióticos Africanos e o arsenal militarista - cristalizado nas posições de "imobilidade" - do Poder Colonial. Na verdade, em 4 de Fevereiro de 1961 aconteceu o incidente que é, historicamente, considerado como o início da inevitável insurreição contra o domínio do "Império" Português em Angola.
Hoje, 65 anos depois do "marco inicial" da injusta e traumatizante Guerra - cujo fim só seria possível por via negocial - pela Independência dos territórios ultramarinos, não será demais reflectir sobre o trágico desvio de verbas substanciais para as despesas militares (o Orçamento para a "Defesa" triplicou!), em prejuízo dos (sempre adiados) investimentos para o nosso Desenvolvimento Regional e Local...
Muito Boa Noite!
A leitura continua...
Acho que o mérito de Marina Tavares Dias foi trazer para as páginas dos jornais, no caso Diário Popular, de novo histórias para ruas e locais de Lisboa, à semelhança de anteriores olisipógrafos. E reavivou o estudo sobre a capital.
Bom dia!
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