Prosimetron

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sábado, 18 de abril de 2026

Leituras no Metro - 2991

«Antes de ser tornar imigrante, é emigante; antes de chegar a um país, tem de sair de outro, e os sentimentos de uma pessoa em relação á terra que deixou nunca são simples. Se saímos, é porque há coisas que rejeitamos - repressão, insegurança, pobreza, ausência de horizontes. Mas esta rejeição é muitas vezes acompanhada por um sentimento de culpa. Há pessoas próximas que se veem abandonadas, uma casa onde crescemos, tantas e tantas lembranças agradáveis. Há também laços que persistem, os da língua ou religião, e também a música, os companheiros de exílio, as festas, a cozinha.

«Paralelamente, os sentimentos em relação aos países de acolhimento não são menos ambíguos. Se lá chegámos, é porque esperamos ali uma vida melhor para nós e para os nossos; mas esta expectativa vem acompanhada de uma apreensão perante a desconhecido, visto que nos encontramos numa relação de forças desfavoráveis, tememos ser rejeitados, humilhados, estamos à espreita de qualquer atitude que denote desprezo, ironia ou piedade.

«O primeiro reflexo não é alardear a diferença, mas passar despercebido. O sonho secreto da maior parte dos migrantes é ser tornado filho do país. A sua tentação inicial é imitar os seus anfitriões, e por vezes consegue-o. Na maioria das vezes, não. Não tem o sotaque certo, nem o tom certo de cor, nem o nome nem o apelido, nem os papéis necessários, o seu estratagema é rapidamente descoberto. Muitos sabem que nem vale a pena tentar de depois mostram-se por orgulho, por bravata, mais diferentes do que são. Alguns até - tenho de o lembrar? - vão ainda mais longe, a sua frustração desemboca numa contestação frontal.»

(Amin Maalouf - As identidades assassinas. Barcarena: Marcador, 2023, p. 42)

O melhor, mesmo, é lerem este livro.

2 comentários:

Maria disse...

Completamente de acordo.
Boas leituras📚

MR disse...

Bom sábado! ☀️