Belas flores. Telheiras tem umas hortas muito bem arranjadas e até floridas, são de lá essas florinhas? Obrigada pela lembrança. Uma vez na vida fui à espiga. Não sei bem se trouxe alguma coisa:). Mas lembro-me de apanhar um autocarro com uma amiga e irmos as duas a um lugar desconhecido de ambas onde rapazes, raparigas, velhos e novos se juntavam. Nunca apreciei enchentes, havia montões de gente e não ficámos senão o tempo de vermos que não era sapato para o nosso pé. Minha mãe fazia um ramo com os cereais que cultivávamos, umas papoilas que cresciam entre eles, um ramo das nossas oliveiras, e atava com um cordel. Depois, pendurava-o no prego da porta da cozinha; as palermas das papoilas murchavam no próprio dia e eu atirava-as fora aborrecida do desaforo e da perseverança de minha mãe em anexá-las. O ramo ficava suspenso do prego até minha mãe fazer uma cruz com dois paus, atá-lo no coração da cruz e espetá-la na seara; era suposto dar sorte. Gostávamos de vê-lo por lá até que chuva e vento desaustinado o levassem.
Recordo a propósito, uma inesquecível "Quinta-Feira da Espiga" da época da minha infância, quando, sendo eu aluno da Escola [Primária] rural "da nossa saudade" (não Salazarista, vejam lá!!!...), fiquei muito impressionado ao ler as surpreendentes palavras que um "romântico" e celibatário Professor escreveu no quadro, dedicadas à sua recém-chegada e "receptiva" (?!) Colega, igualmente solteira, [Maria da] Ascensão: "Se os passarinhos soubessem/ quando era a Ascensão,/ não comiam, não bebiam,/ nem punham os pés [ou o bico] no chão"...
Nesse tempo longínquo, tão marcante para as crianças da(s) Beira(s), em que, em diversas regiões do País, o "sagrado" dia primaveril era um símbolo arcaico da "subida do Senhor ao Céu", mas, também, uma ocasião especial, evocativa de ancestrais "ritos agrários" (para utilizar os expressivos termos do saudoso Prof. MOISÉS E. SANTO, insertos numa das suas indispensáveis Obras), existiam, porém, algumas (notórias) contradições no seio de certas comunidades "rurbanas"!
Num curioso texto, datado de 1956 [in, "CRÍTICA LITERÁRIA, Miscelânea" (ed. da Santa Casa Misericórdia de Lisboa, 2009, p. 98)], Delmira MAÇÃS, reconhecida apologista dos valores católicos tradicionais, não esquece o interessante "caso" do Cartaxo, onde esta jornada festiva, "por causa da colha da espiga, é dos raros dias que o povo guarda; embora não frequentando a Igreja, vai passar esse dia no campo".
Escreve, ainda, a referida Autora: "Na cidade de Portalegre, os elementos ateus esbarraram também com a festa da Quinta-Feira da Ascensão, fortemente enraizada na tradição popular. Um deles, cujas filhas eram bordadoras exímias, criou então a 'festa dos aventais' [não maçónicos, bem entendido!!!... (Obs. de F.F.)] com concurso de bordados em plena serra, prémios, música e, no final, marcha 'aux flambeaux'. O povo continuou, pois, a ir merendar na serra, mas a festa da Ascensão passou a designar-se, despida do carácter religioso, 'festa dos aventais', que perdura ainda hoje, já como tradição."
5 comentários:
Quem dá o que tem...
São lindas!
Obrigada🌸
Belas flores. Telheiras tem umas hortas muito bem arranjadas e até floridas, são de lá essas florinhas? Obrigada pela lembrança.
Uma vez na vida fui à espiga. Não sei bem se trouxe alguma coisa:). Mas lembro-me de apanhar um autocarro com uma amiga e irmos as duas a um lugar desconhecido de ambas onde rapazes, raparigas, velhos e novos se juntavam. Nunca apreciei enchentes, havia montões de gente e não ficámos senão o tempo de vermos que não era sapato para o nosso pé.
Minha mãe fazia um ramo com os cereais que cultivávamos, umas papoilas que cresciam entre eles, um ramo das nossas oliveiras, e atava com um cordel. Depois, pendurava-o no prego da porta da cozinha; as palermas das papoilas murchavam no próprio dia e eu atirava-as fora aborrecida do desaforo e da perseverança de minha mãe em anexá-las. O ramo ficava suspenso do prego até minha mãe fazer uma cruz com dois paus, atá-lo no coração da cruz e espetá-la na seara; era suposto dar sorte.
Gostávamos de vê-lo por lá até que chuva e vento desaustinado o levassem.
Bela lembrança da Bea. Por aqui faziasse algo semelhante.
Lindas flores
Um abraço
Muy bonitas. Abrazos.
Recordo a propósito, uma inesquecível "Quinta-Feira da Espiga" da época da minha infância, quando, sendo eu aluno da Escola [Primária] rural "da nossa saudade" (não Salazarista, vejam lá!!!...), fiquei muito impressionado ao ler as surpreendentes palavras que um "romântico" e celibatário Professor escreveu no quadro, dedicadas à sua recém-chegada e "receptiva" (?!) Colega, igualmente solteira, [Maria da] Ascensão: "Se os passarinhos soubessem/ quando era a Ascensão,/ não comiam, não bebiam,/ nem punham os pés [ou o bico] no chão"...
Nesse tempo longínquo, tão marcante para as crianças da(s) Beira(s), em que, em diversas regiões do País, o "sagrado" dia primaveril era um símbolo arcaico da "subida do Senhor ao Céu", mas, também, uma ocasião especial, evocativa de ancestrais "ritos agrários" (para utilizar os expressivos termos do saudoso Prof. MOISÉS E. SANTO, insertos numa das suas indispensáveis Obras), existiam, porém, algumas (notórias) contradições no seio de certas comunidades "rurbanas"!
Num curioso texto, datado de 1956 [in, "CRÍTICA LITERÁRIA, Miscelânea" (ed. da Santa Casa Misericórdia de Lisboa, 2009, p. 98)], Delmira MAÇÃS, reconhecida apologista dos valores católicos tradicionais, não esquece o interessante "caso" do Cartaxo, onde esta jornada festiva, "por causa da colha da espiga, é dos raros dias que o povo guarda; embora não frequentando a Igreja, vai passar esse dia no campo".
Escreve, ainda, a referida Autora: "Na cidade de Portalegre, os elementos ateus esbarraram também com a festa da Quinta-Feira da Ascensão, fortemente enraizada na tradição popular. Um deles, cujas filhas eram bordadoras exímias, criou então a 'festa dos aventais' [não maçónicos, bem entendido!!!... (Obs. de F.F.)] com concurso de bordados em plena serra, prémios, música e, no final, marcha 'aux flambeaux'. O povo continuou, pois, a ir merendar na serra, mas a festa da Ascensão passou a designar-se, despida do carácter religioso, 'festa dos aventais', que perdura ainda hoje, já como tradição."
Muito Boa Noite!
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