Porto: Livr. Chardron, 1910
«Domingo gordo: um ar frio de inverno dá uma certa lógica aos dominós, transformando-os em agasalhos menos monótonos; e as máscaras de seda ou de papelão, aderentes ao rosto como uma afronta, evitam os cortantes golpes de vento gelado. O primeiro ser anormal que apareceu nesse domingo, na
madrugada da festa que no Brasil é de Momo, e na Espanha de Quasimodo, foi um "diabinho". [...]
«Das árvores a que o outono arrancou as folhas e que a
primavera não reverdeceu, caía uma chuva constante de pedaços miúdos de papel,
[…]. As serpentinas se desenrolavam como foguetes que sobem, longas, finas e
coleantes. E das quatro filas de carros abertos, das tribunas, de toda parte
baixavam nuvens perfumadas de rosas, cravos, violetas. O longo préstito subia e
descia, harmonioso e em fila, entre as guitarras das estudantinas e os pregões
dos vendedores ambulantes que ofereciam as suas serpentinas de quarenta metros,
- porque as autoridades só permitiam as de vinte. […]
«De repente houve um alvoroço alegre, uma espera atenta;
preparavam-se os dacos de confetti, empunharam-se as serpentinas, escolheram-se
os mais frescos e perfumados ramalhetes. Um automóvel apareceu ao longe […] o
rei de Espanha passava na Castelhana […].»
Tomás Lopes - Paisagens de Hespanha, p. 70-77