Prosimetron

Prosimetron
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Castelo-Branco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Castelo-Branco. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Lendo os outros



"COISAS QUE APRENDI COM A VIDA

O mundo pertence aos tolos, pelo que nunca devemos revelar metade daquilo que sabemos.

O mundo está cheio de grandes homens que nunca demonstraram aquilo que valem, pelo que devemos subentender que tais propaladas qualidades se limitam à capacidade de vergarem a espinha e de servirem a um senhor que os fez importantes.

O mundo está cheio de projectos e ideias que raramente se aplicam; quanto mais se invocam os valores e a coerência das ideias, mais atropelos se cometem contra aqueles que não têm nem projectos nem ideias.

Pior que os medíocres são os puros; em nome das suas monomanias são capazes de matar, torturar e flagelar as suas vítimas enquanto exibem profunda consternação pela teimosia com que estas lhes resistem.

Por detrás de qualquer ideia peregrina há, escondido, um chão propósito. A mentira e a dissimulação colam-se como um luva aos mais altos propósitos. Mentir por princípio e enriquecer como fim são leis invioláveis da vida social.

As pessoas gostam de pequenas coisas, lugares-comuns, meias-tintas e ramerrão que não anda nem deixa andar. Nunca faças nada que coloque em risco a mediocridade santificada. Se o fizeres, és um um desmancha-prazeres, um provocador ou um marginal.

Quanto mais vulgar e maldosa uma ideia, mais aguerridos seguidores se congregam em torno da sua bandeira. Que eu saiba, as ideias mais populares são aquelas que pedem vingança, morte, anulação da diferença e não as que exigem aprimoramento, superação e emulação".


Miguel Castelo - Branco em "Combustões"

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Lendo os outros

Portinari: o cafeeiro (1939)

"As revoluções e as rebeliões não nascem do nada. Se encontram quem lhes dê rosto, uma ideia condutora ou uma justificação, os motivos profundos que as desencadeiam não são acidentais nem se prendem com a vontade de poder e a estratégia de um só homem ou de um grupo. Há que saber ouvir o povo chão, compreender a revolta daqueles que se sentem ultrapassados, repelidos ou humilhados por uma dinâmica que não conseguem acompanhar. Para os poderosos e para as elites que jamais tiveram fome, problemas de emprego e angariação de subsistência, que não sabem o que é penar para reunir o mínimo para manter a dignidade, há que encontrar o termo adequado que permita a uns dormir descansados e aos outros não acordarem em ira cega e destruidora. Saber mudar a tempo, saber abrir generosamente a mão do supérfluo para manter o essencial, não acreditar, jamais, que a vantagem de hoje é caução para todo o sempre; eis o segredo de um sistema justo. É certo que o acto de governar desenvolve-se em esferas diversas. Se visa manter o Estado e os grandes princípios que fazem de uma sociedade uma unidade de destino, deve também preocupar-se com a soma das coisas pequenas que justificam a cidadania, o estar em sociedade e o viver em conjunto por uma ideia de justiça e felicidade que a todos deve premiar. Se aos trabalhadores não cabe governar, cabe ao Estado e à elite no poder governar prioritariamente para os trabalhadores. Aprendi isto há muito: quem pouco tem, contenta-se com pouco, conquanto sinta que por ele se compadecem e abeiram os poderosos. É este o segredo da arte de governar. O acto de governar é um acto de caridade. E se de tal se rirem as elites, há que dizer-lhes que os trabalhadores, quando exasperados, são coisa terrível à solta."


in "Combustões", 14.4.2009