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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Do Livre Arbítrio

O Convento de Santa Cruz, em Sintra, conhecido pelo Convento dos Capuchos foi um local que visitei  estas férias. O momento que vivi neste espaço de intimismo e ascetismo religioso foi especial.
Provavelmente o convento já foi aqui focado. No entanto, deixo as minhas impressões.

Uma imagem que está na parede da bilheteira. Veja-se o penedo sobre-elevado com a cruz. 

Santo Agostinho, Do Livre Arbítrio, Livro II, cap. 1 (versão pdf, p. 73)


A entrada tem dois caminhos que simbolizam o livre arbítrio. (Lido in loco)

A paisagem belíssima e luxuriante contrasta com o hino à pobreza, à dureza da pedra e ao frio austero. O convento dos Frades Menores foi fundado em 1650 por D. Álvaro de Castro, conselheiro de D. Sebastião. A comunidade era composta, inicialmente, por oito frades. Segundo uma lenda destaca-se Frei Honório por ter vivido as últimas três décadas da sua vida a cumprir penitência habitando numa pequena gruta dentro da cerca do convento.
Sendo o mentor da ordem S. Francisco de Assis o pequeno conjunto de celas é de um equilíbrio austero e harmonioso que acompanha o declive do terreno onde foi implantado. Encontramos duas ou três celas maiores (embora de espaço reduzido) e algumas de tamanho tão minúsculo que só em genuflexão penitencial se podia estar. Os tectos e as portadas das janelas são em cortiça. 
O convento foi abandonado com a extinção das ordens religiosas em 1834. Infelizmente o parque não tinha uma brochura informativa. 
As informações que recolhi foi das legendas espalhadas no local, da wikipédia e daqui.

"De todos os meus reinos, há dois lugares que muito estimo, o Escorial por tão rico e o Convento de Santa Cruz por tão pobre".
D. Filipe II [*D. Filipe I de Portugal], 1581, após uma visita ao convento (?). (Wikipédia)
Imagem próxima da entrada 

Capela e visão de parte do convento

Construído à volta das rochas existentes o corredor tem este aspecto labiríntico. 
Sala do Capítulo ?

Refeitório com a particularidade da pedra da mesa ter sido oferta do Cardeal D. Henrique.
(Wikipédia)

Cozinha

Uma das capelinhas. Contrasta a azulejaria com a pobreza da envolvência da pedra

Uma perspectiva ao fundo vê-se o sino, chamamento de Deus

* Como se aprendia durante o Estado Novo.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Crónicas pelo mundo

Terça-feira, 17 de Junho de 2008. Um dia de trabalho intenso! Aproveito uma pausa... para me refrescar e mudar de roupa. A noite vai ser longa e só vou conseguir viajar pelo meu interior. O meu companheiro de viagem segredou-me a história da sua viagem:
... Seguindo o mapa saí da povoação por uma estrada que havia ao lado da sua casa. Depois apanhei a 247, perdendo-me várias vezes, até que cheguei ao Convento dos Capuchos. Estava fechado e com aspecto abandonado. Nem um carro, nem uma alma. Só se ouvia o rumor dos riachos, o canto dos pássaros, o movimento das folhas das árvores. Toquei à campainha que havia junto a uma porta desengonçada, mas não apareceu ninguém, de modo que decidi dar um passeio pelo bosque. Cheguei, depois de me perder na direcção norte, a um lugar húmido de abundante arvoredo, onde havia fetos secos ao lado de outros verdejantes. ... Parecia um botânico a auscultar plantas... Os feixes luminosos davam um certo mistério ao bosque... Senti medo e voltei de novo ao convento. Quando cheguei vi um homem à entrada, que era, afinal, um frade capuchinho, mas sem sotaina, e que me sorriu e convidou a entrar. Disse-me que o convento devia estar fechado durante o tempo que durasse a restauração. Andavam assim há três anos e ainda não tinham começado as obras, de modo que tinha decidido abri-lo a pessoas que o solicitassem. Informou-me, então, que o convento tinha sido construído em 1560. Perguntei-lhe porque eram as celas dos monges tão pequenas e como resposta sorriu-me. As salas eram escavadas na rocha e as suas portas baixíssimas, como se aqueles clérigos fossem na realidade gnomos da floresta. Ele não respondia a algumas perguntas. Fazia-se surdo quando não queria responder, só se referia ao que era convencional e enunciava as respostas que sabia por pura lógica. Limitava-se a dizer as frases típicas, as lendas que aparecem em todos os guias portugueses. Mostrou-me o refeitório, a cozinha e os aposentos. Era tudo austeridade, pobreza e abandono de bens mundanos. Contou-me que o próprio Filipe II, quando foi rei de Portugal, disse que tinha no seu reino o convento mais rico e o mais pobre: o Escorial e os Capuchos. Eu observava de uma maneira convencional, como quem não espera nada porque só aguarda que o tempo passe rapidamente e não presta muita atenção à realidade presente. Mas na passagem de um recinto para outro, justamente ao chegar ao refeitório, comecei a ficar com pele de galinha. Parei. Os pêlos dos braços pareciam esticar-se como se um íman os atraísse para as pedras das paredes. Senti um calafrio que saía da minha garganta e que descia pela minha coluna. O capuchinho que me guiava e que me ia contando histórias sobre o seu convento parou de repente e começou a observar-me. Andou à minha volta e perguntou-me:
- E tu quem és? ...

- E eu quem sou?

[O meu companheiro de viagem é Antonio Rodríguez Jiménez, A Alquimia do Unicórnio, Lisboa, Vega, 2007]