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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A inteligência das flores - 4

  
Numa visita ao Horto do Campo Grande 

É nas Orquídeas que nos encontraremos as manifestações mais perfeitas e mais harmoniosas da inteligência vegetal. Naquelas flores tortuosas e excêntricas, o engenho da planta atinge o mais alto grau e rasga com uma chama estranha o muro que separa os reinos. […] Não é fácil explicar, sem figuras, o mecanismo, extraordinariamente complexo, da Orquídea […]. Tomemos uma das Orquídeas mais conhecidas em nossas regiões, a Orchis maculata por exemplo, ou a Orchis latifolia, a Orquídea de folhas largas […]. A flor tipo das nossas orquídeas representa uma goela fantástica e escancarada de dragão chinês. O lábio inferior, muito estendido e pendente, em forma de avental recortado, serve para poisada ao insecto. O lábio superior arredonda-se numa espécie de capuz, que abriga os órgãos essenciais; ao passo que no dorso da flor, ao lado de pedúnculo, se abaixa uma espécie de esporão ou de longa corneta pontiaguda, que encerra o néctar. Na maior das flores, o estigma ou órgão feminino é uma pequena bola, mais ou menos viscosa, que, na extremidade de uma frágil haste, espera pacientemente a vinda do pólen. Na Orquídea essa instalação clássica é quase despercebida. No fundo da goela, no lugar que o gorgomilo ocupa na garganta, há dois estigmas, estreitamente soldados, por cima dos quais se eleva outro estigma, convertido num órgão extraordinário. […] Vejamos agora o que sucede, quando um insecto penetra na flor. Poisa no lábio inferior, desdobrado para o receber, e, atraído pelo cheiro do néctar, procura atingir, no fundo, a corneta que o contém. […] Maurice Maeterlinck
A inteligência das flores. Lisboa: Clássica Ed., 1918, p. 54-57 Se quiserem saber o resto, leiam o livro que é fascinante. Darwin já havia escrito um livro sobre estas flores: Da fecundação das orquídeas pelos insectos. Dei uma vista de olhos à tradução francesa e achei interessante. E eu não sou muito dada a estas leituras…

sábado, 31 de janeiro de 2009

A inteligência das flores - 3


Salva


fotos.sapo.pt/hPQJjcIZekR47HQ6dtPj/

«Eis aqui a maravilhosa cilada de amor, imaginada pela Salva: muito ao fundo da sua tenda de seda cor de violeta, destila algumas gotas de néctar; é a isca. Mas, impedindo o acesso ao líquido açucarado, erguem-se duas hastes paralelas, muito semelhantes aos madeiros giratórios de uma ponte levadiça, na Holanda. No cimo de cada haste, há uma grande empola, a antena, em que transborda o pólen; em baixo, duas empolas mais pequenas servem de contrapeso. Quando a abelha penetra na flor, para atingir o néctar tem de empurrar com a cabeça as pequeninas empolas. As duas hastes, que giram sobre o eixo, oscilam imediatamente, e as antenas superiores vão tocar no ventre do insecto, cobrindo-o de pó fecundante.
Assim que a abelha saiu, os eixos, convertidos em molas, repõem o mecanismo na sua posição primitiva, e tudo fica pronto a funcionar, para quando se dê nova visita.»
Maurice Maeterlinck
In: A inteligência das flores. Lisboa: Clássica Ed., 1918, p. 43-44

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A inteligência das flores - 2

Lírio, Tulipa e Arruda


maiacarvalho.blogs.sapo.pt/arquivo/Lirio.jpg




olhares.aeiou.pt

«[…] na Primavera, as fêmeas são alternadamente mais compridas ou mais curtas do que os machos. No Lírio, na Tulipa, etc., a esposa, muito alongada, faz o que pode para recolher e fixar o pólen. Mas o sistema mais original e mais fantasista é o da Arruda (Ruta graveolens), erva medicinal, bastante mal cheirosa, […]. Os estames, tranquilos e dóceis na corola amarela, esperam, dispostos em círculo, à roda do grosso pistilo. Na hora conjugal, obedecendo à ordem da mulher, que, aparentemente, faz uma espécie de apelo nominal, um dos machos aproxima-se e toca no estigma; depois, vem o terceiro, o quinto, o sétimo, o nono macho, até ao último que pertença à série ímpar. Em seguida, na série par, é a vez do segundo, do quarto, do sexto, etc. É deveras o amor à disciplina. Aquela flor, que sabe contar, parecia-me tão extraordinária, que eu, primeiro, não acreditei nos botânicos, e desejei verificar mais de uma vez o apego dela aos números antes de ousar confirmá-lo. Verifiquei que ela rarissimamente se engana.»
Maurice Maeterlinck
In: A inteligência das flôres. Lisboa: Clássica Ed., 1918, p. 37

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A inteligência das flores – 1

Papoila

http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/noticias_ver.asp?noticia=22514

«Não deixeis de examinar oportunamente a cabeça vulgar da Papoila, que se encontra em casa de todos os ervanários. Naquela grande cabeça, depara-se-nos uma prudência, uma previdência, dignas dos maiores elogios. Sabe-se que ela encerra milhares de grãos negros, extremamente pequeninos. Trata-se de espalhar aquelas sementes com a maior destreza e para tão longe quanto possível, caísse ou se abrisse por baixo, o precioso pó negro não formaria senão uma pasta inútil, junto da haste. As sementes, porém, só podem sair por aberturas, feitas no cimo do invólucro. Este, quando maduro, inclina-se no seu pedúnculo, oscila com a menor brisa, e espalha as sementes no espaço, com o mesmo gesto, de que se servem os semeadores.»
Maurice Maeterlinck
In: A inteligência das flores. Lisboa: Clássica Ed., 1918, p. 16

Maurice Maeterlinck, dramaturgo, ensaísta belga de língua francesa e principal expoente do teatro simbolista, recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1911. A sua obra L'intelligence des fleurs foi publicada em 1907. Durante uma breve estada em Portugal, escreveu o prefácio do discurso de Salazar, traduzido por Fernanda de Castro, Une revolution dans la paix (Paris: Flammarion, 1937).