Plus encore que dans le poème, c' est dans l' aphorisme que le mot est dieu.
Penso não ser surpresa para ninguém que gosto bastante de aforismos, tanto dos que nos falam desde a Antiguidade como dos do século passado. Entre estes últimos, há para mim um autor incontornável : Emil Cioran. No entanto, "tomo-o" em doses homeopáticas para evitar os perigos advenientes de escrita tão negra. Comprei recentemente Ébauches de vertige,um pequeno volume de 2003 que reproduz uma parte de Écartèlement ( 1979 ), ambos publicados pela Gallimard. Fiz uma selecção de alguns menos insuportáveis para o Prosimetron.São reflexões sobre a vida, a morte, a natureza humana e a arte- ou seja, tudo o que realmente importa.
" Au marché, deux vieilles s' entretiennent gravement. Au moment de se séparer, l' une d' elles , la plus detériorée, conclut: « Pour être tranquille, il faut rester dans la normale de la vie.» C' est, au langage prés, ce que professait Épictète. "
- Emil Cioran, Ébauches de vertige, Gallimard, 2003, p.12.
" Personne n' a jamais pu se délivrer du Temps. " Je le savais. Mais quand c'est dans le Mahâbhârata qu' on le lit, on le sait pour toujours.
- E.Cioran, Ébauches de vertige, p.20.
Gosto muito do Mahabharata ( penso que é esta a grafia em português ), o mais longo poema épico do mundo. A propósito destas palavras de Cioran, lembro a adaptação maravilhosa de Peter Brook feita há precisamente 20 anos. É, aliás, a única que vi integralmente, até porque mais consentânea com a minha "sensibilidade ocidental". Vale a pena reservar uma tarde ou uma noite das nossas vidas para ver esta encenação brookiana de um monumento da cultura universal. Uma nota final mais ligeira: a tradução literal do título do poema é " a história dos bharatas ".
- Monte Athos. Em baixo, as quentes e inacessíveis águas do Mediterrâneo.
Je ne voudrais pas vivre dans un monde vidé de tout sentiment religieux. Je ne songe pas à la foi mais à cette vibration intérieure, qui, indépendante de quelque croyance que ce soit, vous projette en Dieu, et quelquefois audessus.
- E.M. Cioran, Ébauches de vertige, Gallimard, 2003, p.19.
- Interior da sinagoga berlinense da Rykestrasse, a maior e dizem que a mais bela da Alemanha. Construída em 1904, foi incendiada e pilhada em 1938 ( Noite de Cristal ) tendo sido usada como armazém e estábulo da Wehrmacht durante a Segunda Guerra. Foi reinaugurada em Agosto de 2007.
Leurs anciennes lois interdisaient aux Juifs de prédire l'avenir. Juste défense. Car s'ils avaient prévu ce qui les attendait, auraient-ils eu la force de se maintenir, d' être eux-mêmes, d'affronter les surprises d'un tel destin?
-E.M. Cioran, Ébauches de vertige, p.122, Gallimard, 2008.
Ce jour-là nous parlions à table « théologie ». La bonne, une paysanne illettrée, écoutait debout. « Je ne crois en Dieu que quand j' ai mal aux dents », dit-elle. Après toute une vie, son intervention est la seule dont je me souvienne.
No blogue A Casa Improvávelencontrei e redescobri um filósofo que para mim é ainda enigmático: E. M. Cioran. Procurei um livro dele e encontrei este Do Inconveniente de Ter Nascido. Ainda não tenho uma ideia precisa deste filósofo. Muito obrigada C.A. pelo estímulo.
No livro encontrei esta afirmação com a qual, em parte, me identifico:
"Não é fácil falar de Deus quando não se é nem crente nem ateu: e é sem dúvida o drama de todos nós, teólogos inclusive, não podermos ser nem uma coisa nem outra". x E. M. Cioran, Do Inconveniente de Ter Nascido, Lisboa: Livraria Letra Livre, 2010, p.68
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A partir da afirmação lembrei-me do livro de Jean Delumeau que há uns anos atrás me deu prazer ler. Todos quer sejamos crentes ou não procuramos um lugar idílico, uma utopia, um Paraíso. Deixo um breve excerto da história do Paraíso.
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Li Livres dou Tresor
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«Na Índia fica o Paraíso terrestre, onde estão toda a sorte de árvores e de pomos e de frutos que existem na terra, e também ali está a árvore da vida que Deus vedou ao primeiro homem; e ali não faz frio nem calor senão com razão e moderação; e no meio está a fonte que banha tudo, e desta fonte nascem os quatro rios de que ouvistes falar: são Píson, Guion, Tigre e Eufrates.»
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Brunetto Latini,Li Livres dou Tresor Paris, «Coll. des inédits de l'histoire de France», 1863, p. 161, inJean Delumeau, Uma História do Paraíso, O Jardim das Delícias, Lisboa:Terramar, 1992, p. 63
Offrande musicale, Art de la fugue, Variations Goldberg: J' aime en musique, comme en philosophie et en tout, ce qui fait mal par l ' insistance, par la récurrence, par cet interminable retour qui touche aux dernières profondeurs de l' être et y provoque une délectation à peine soutenable.
- E.M. Cioran, Ébauches de vertige, p.31, Gallimard, 2008.
Notre époque sera marquée par le romantisme des apatrides. Dejá se forme l' image d' un univers où plus personne n' aura droit de cité. Dans tout citoyen d' aujourd'hui gît un météque futur.
Si tu ne veux pas crever de rage, laisse ta mémoire tranquille, abstiens-toi d' y fouiller. - E.M. Cioran, in Aveux et Anathémes
Um excelente conselho.
Esta crónica de João Bénard da Costa foi escrita no início do Outono. Transcrevi-a agora por causa da proximidade da visita do Papa Bento XVI, pois ela remete-nos para uma reflexão sobre as mudanças operadas na Igreja. Para não ser maçadora escolhi os excertos mais significativos. Achei especial graça porque ainda ouvi a missa em latim apesar de ter feito a catequese após o Vaticano II.
"O livrinho que, agora, Manuel Rosa me pôs nas mãos e que daqui tanto lhe agradeço - é uma antologia de orações da antiga liturgia cristã, escolhidas e traduzidas por José Tolentino Mendonça e Joaquim Félix de Carvalho. Tem na capa (cabeça, busto e braço ) da Madalena de Artemisia Gentileschi que está no Pitti (o que eu gosto desse quadro!) e chama-se O Dom das Lágrimas*. (...)
José Tolentino evoca sobretudo a espiritualidade dos Padres do Deserto e dos místicos. Evagro, o Pôntico, que explicou a acédia como a dureza das almas que resistem às lágrimas. São Gregório de Nazianza, São Gregório de Nissa, o Diácono Efrém. Fala de Orígenes e da«tristeza segundo Deus», «sede da alma», «húmido silêncio espiritual». «As lágrimas são uma fala estimada», «uma chuva de ouro», «um alagado lençol de piedade sobre o mundo». E recito ainda outra citação do Poeta, esta de Cioran:« As lágrimas são aquilo que permite a alguém ser santo, depois de ter sido homem». Por isso, a partir do século VIII e IX, através das chamadas Missas de Alcuíno, como aprendi com a erudita introdução de Joaquim Félix de Carvalho, surgiram nos códices medievais, formulários de missas « pro petitione lacrimarum». Essas missas rezaram-se até ao Vaticano II, que acabou com elas, na reforma litúrgica que acabou com tantas outras coisas que nunca deviam ter acabado. São belíssimas as orações da antologia, publicadas em latim e na tradução portuguesa.
Transcrevo estas duas, que no livro levam os números XII e VII:
Deus omnipotente considera favorável estas orações e alaga nossos olhos com rios de lágrimas que apaguem as flamas dos incêndios merecidos
[...]
digna-te dar abundância luz da inteligência verdadeira a estes submissos sevos lágrimas aos olhos contrição no coração até que purificados do actual luto e da tristeza espiritual da morte eterna nos afastemos como de uma ruína"
*Colecção Gato Maltês, edição Assírio & Alvim, 2002
João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e outras, 1º Volume, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p.71-74.
Prelúdio e Fuga nº 1, BWV 846, de "O cravo bem temperado" de Joahnn Sebastian Bach Cravista-Helmut Walcha
(...) Cherchez la verité sur un auteur plutôt dans sa correspondance que dans son oeuvre. L' oeuvre est le plus souvent un masque. Un Nietzsche, dans ses livres, joue un rôle, s'érige en juge et en prophète, attaque amis et ennemis, et se place, superbement, au centre de l'avenir. Dans ses lettres, en échange, il se plaint, il est misérable, abandonné, malade, pauvre type, le contraire de ce qu' il était dans ses impitoyables diagnostics et vaticinations, véritable somme de diatribes. (...)
- E.M. Cioran, in Manie épistolaire, na NRF nº 489, Outubro de 1995.
John William Waterhouse, O remorso de Nero, 1878, óleo sobre tela, col.part.
Ne jamais perdre de vue que la plèbe regretta Néron. C'est ce qu'on devrait se rappeler toutes les fois qu'on est tenté par quelque chimère que ce soit.
- E.M. Cioran, in Ébauches de vertige, Gallimard, 2008, p.54.
Sobre a tela: Pretendeu Waterhouse retratar o remorso de Nero após ter mandado assassinar sua mãe, Agripina A Jovem, sentimento este que está longe de obter o consenso entre os historiadores...