Na montra da Livraria Multinova (Av. Santa Joana a Princesa, em Lisboa).
Quando vi esta banhista, achei que poderia aqui trazer uns livros com a palavra praia no título. Destes três, só li o de Pavese, mas o de Agatha Christie já vem a caminho.
Mas a noite ventosa, a noite límpida que a lembrança somente aflorava, está longe, é uma lembrança. Perdura uma calma de espanto, feita também ela de folhas e de nada. Desse tempo mais distante que as recordações apenas resta um vago recordar.
xxxxxxxxxxÀs vezes volta à luz do dia, na imóvel luz dos dias de Verão, aquele espanto remoto.
xxxxxxxxxxPela janela vazia o menino olhava a noite nas colinas frescas e negras, e espantava-se de as ver assim tão juntas: vaga e límpida imobilidade. Entre a folhagem que sussurrava na escuridão, apareciam as colinas onde todas as coisas do dia, as ladeiras e as árvores e os vinhedos, eram nítidas e mortas e a vida era outra, de vento, de céu, e de folhas e de coisa nenhuma.
xxxxxxxxxxÀs vezes regressa na imóvel calma do dia a recordação daquele viver absorto, na luz assombrada.
Cesare Pavese In: Trabalhar cansa / trad. Carlos Leite. Lisboa: Cotovia, 1997, p. 65
Para c.a., depois de ter lido outra «Noite» de Pavese n'A Casa Improvável.
Gorni Kramer (1913-1995) e a sua banda.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
«Ninguém se mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmos na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada.» Faz hoje 60 anos que Pavese se suicidou num quarto de hotel, em Turim.
23 de Julho «Outra singularidade dos sonhos é que – a menos que sejam imediatamente apreendidos, repensados e revividos com intensidade – nunca mais nos lembramos deles. Um sonho é coisa ainda menos nossa do que uma narrativa escrita por outrem, porque ao escutarmos, nunca somos tão passivos como quando sonhamos. E, no netanto, é indubitável que somos nós que criamos os sonhos. Criar sem ter consciência disso, eis o que o sonho tem de estranho.»
Cesare Pavese In: Ofício de viver: Diário (1935-1950) / trad. Alfredo Amorim. Lisboa: Portugália, 1968, p. 187
Pierre Puvis de Chavannes (1824-1898) - Le rêve Óleo sobre tela, 1883 Paris, Musée d'Orsay
22 de Julho [1940] Sonhar que, de regresso da prisão, ou do confino, chegamos a nossa casa, uma moradia, riquíssima, principesca, com salões e escadarias, e que aí encontramos os conhecidos da família, a quem somos apresentados, e esperamos depois, com enorme curiosidade, que entrem em cena os nossos pais, para ver como são, que tipos foram escolhidos para ti - é um outro caso de sonho feito como um romance que se lê sem se saber como acabará, isto é, em que leitor e protagonista coincidem. O sonho é uma construção da inteligência, a que o construtor assiste sem saber como vai acabar.
Cesare Pavese In: Ofício de viver: Diário (1935-1950) / trad. Alfredo Amorim.Lisboa: Portugália, p. 187
És como uma terra que nunca ninguém disse. Não esperas nada a não ser a palavra que jorrará do fundo como um fruto entre os ramos. Um vento vem ter contigo. Coisas mortas e secas abafam-te e vão no vento. Membros e palavras antigas. No Verão tremes.
29 de Outubro de 1945
Cesare Pavese In: Trabalhar cansa. Lisboa: Cotovia, 1998, p. 319
Depois de ter ouvido um poema de Cesare Pavese, maravilhosamente dito por Vittorio Gassman, no Arpose.
O céu estará límpido. As ruas abrir-se-ão sobre as colinas de pinheiros e pedra. O tumulto das ruas não modificará esse ar imóvel. As flores salpicadas de cores, que há nas fontes, piscarão os olhos como mulheres divertidas. As escadas os terraços e as andorinhas cantarão ao sol. Abrir-se-á aquela rua, as pedras cantarão, o coração baterá em sobressalto como a água nas fontes - será esta a voz que subirá as tuas escadas. As janelas saberão o valor da pedra e do ar matinal. Abrir-se-á uma porta. O tumulto das ruas será o tumulto do coração na luz perdida.
Serás tu - imóvel e clara.
28 de Março de 1950
Cesare Pavese In: O vício absurdo / sel., pref. e trad. Rui Caeiro. Lisboa: & etc, 1990, p. 55
Cesare Pavese - poeta, romancista e contista - nasceu em 9 de Setembro de 1908, numa pequena aldeia do Piemonte: Santo Stefano Belbo.