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sábado, 4 de setembro de 2010

Segundo poema de solidão

Serei tão secreta
como o tecido da água

e tão leve

e tão através de mim deixando passar
toda a paisagem

e todo o alheio pecado
do gesto, da presença ou da palavra

que logo que a tua mão me prenda
me não acharás:

serei de água

Glória de Sant'Ana

Porque esta noite ouvi lindos poemas lusófonos, entre os quais um desta poetisa, de que gosto muito.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Na morte de Glória de Sant'Anna



Recebemos de Margarida Pereira-Müller , leitora do Prosimetron e amiga do nosso Filipe Vieira Nicolau, este testemunho sobre a morte da poetisa Glória de Sant'Anna :


Morreu Glória de Sant'Anna. Uma poetisa tão sensível que sente com as plantas. Como escrevi há anos num artigo publicado na LAÇOS: O portal da Internet sobre Glória de Sant'Anna começa com uma pergunta: "Já alguma vez arrancou uma planta útil da terra? Não o faça. Eu sei o que sente uma planta arrancada sem culpa do seu chão". (do Livro Amaranto).Que mulher é esta que sente com as plantas? Uma mulher sensível que já navegou "pelo interior de um longo rio humano / de tempos diversos onde também há sangue vegetal, / buscando o que acabei por encontrar - a imensa / angústia que se reparte. / Sobre isso escrevo."

Mas uma poetisa nunca morre, está sempre viva e presente. Fica para sempre connosco através da sua escrita.

Um abraço

Margarida

DELENDA GLÓRIA

eis-me solta de todas as amarras
da canga a que forcei o pensamento
de novo imersa nesta pura água
em que me identifico e apresento

limpa dos sulcos de súbitas grades
a que me expus de rosto claro e isento
– medida consciente para a mágoa
que é do tempo sem horas o sustento

de novo as mãos abertas e sem nada
estendidas à ternura do momento
a cada dia pronto que me alaga

de novo tão adulta como o vento
completa dentro desta pura água
por onde me procuram e me ausento

Glória de Sant'Anna
In: Amaranto. Lisboa: Imp. Nac.-Casa da Moeda, 1988, p. 289

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Glória de Sant'Anna


Glória de Sant'Anna, retratada por seu filho, Rui Paes.

Glória de Sant’Anna, poetisa moçambicana, faleceu no dia 2 de Junho em Gaia.
«A obra de Glória de Santa’Anna, na sua concentração e densidade, na sua liquidez secreta e cheia de pudor, na sua misteriosa claridade, na sua “mortal” e dominada angústia» (Eugénio Lisboa), consiste em vários livros de poesia e um de crónicas, para além de colaboração diversa em jornais e revistas.

GRAVURA

Aqui estou inteira:
De memória ausente,
Sem fisionomia
- como uma medalha.

Aqui estou inteira
para ser guardada
no fundo do tempo
onde não há nada.


RECADO

Se eu morrer longe
sepulta-me no mar
dentro das algas ignorantes
e lúcidas.

Cobre o meu rosto de palavras
antigas
e de música.

Deixa em meus dedos
a memória mais recente
de outras coisas inúmeras

e nos meus cabelos
o incerto movimento
do vento e da chuva.

Eu vogarei sob as estrelas
com pálidas luzes entre os cílios
e pequenos caramujos
entrarão nos meus ouvidos.

Estarei assim idêntica
a todos os motivos.


In: Amaranto. Lisboa: Imp. Nac.-Casa da Moeda, 1988, p. 51, 57