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sábado, 4 de março de 2023

Marcadores de livros - 2494

Vamos ao cinema? 


Para além dos filmes dos irmãos Marx, Tese sobre um homicídio é o filme de que me lembro melhor dos que vi e que constam destes marcadores. Vi-o duas vezes com um intervalo curto: uma semana?



Para Mondopunts, com um agradecimento.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Onde vamos parar?


Acabei de ler na net: «Depois de Roald Doahl, é a vez dos livros de "James Bond" serem revistos para serem menos racistas e "ofensivos"» 
«Os 14 livros de James Bond, escritos pelo autor britânico Ian Fleming entre 1953 a 1966, serão revistos para remover as referências racistas e "ofensivas" antes de serem republicados em abril, assinalando os 70 da primeira edição de "Casino Royal", o primeiro livro da saga.
«A Ian Fleming Publications Ltd - a empresa que detém os direitos literários da série sobre 007, o icónico agente dos serviços secretos britânicos - encomendou a revisão, que terá como objetivo retirar a linguagem racialmente ofensiva e também eliminar alguns estereótipos que já estejam desatualizados. Apesar disto, de acordo com The Telegraph, as novas edições serão publicadas com um aviso de isenção de responsabilidade: “Este livro foi escrito numa época em que termos e atitudes que podem ser considerados ofensivos pelos leitores modernos eram comuns” (algo bastante parecido aos avisos que os serviços de streaming, como o Disney+, adicionaram antes de conteúdos com representações racistas, como O Livro da Selva). 
«“Uma série de atualizações foram feitas nesta edição, mantendo o mais próximo possível do texto original e do período em que está definido”, acrescenta o aviso.» (Retirado daqui.)
Não há um organismo britânico que vele pelos direitos dos autores mortos?
Que estes «revisionistas» da literatura deixem os mortos em paz! Escrevam livros novos em vez de andar a censurar. Onde vamos parar? A novas fogueiras de livros?

sábado, 29 de dezembro de 2012

Leituras de Metro - 113

«No dia 20 de maio de 1941, Ian Fleming, o futuro autor dos romances da série James Bond, registou-se no Hotel Palácio, no Estoril, e descreveu a sua ocupação como um simples funcionário governamental. Na verdade, Fleming estava em Lisboa como parte do seu trabalho na Operação Golden Eye [...] para os serviços secretos da marinha britânica. O plano seria implementado na eventualidade de uma invasão da Espanha pelos alemães [...] A estada de Fleming em Lisboa foi passada a lidar com o lado português da operação e a tratar dos preparativos com os diretores dos postos de Lisboa com vista à potencial implementação dessa operação. Também passou algum tempo com o seu velho amigo David Eccles, do Ministério da Guerra Económica. Fleming estava em trânsito e viera de Inglaterra para Lisboa com destino aos Estados Unidos.
«O serviço de hidroaviões da Pan Am a partir de Lisboa era um serviço popular para os agentes britânicos, que também usavam os voos da BOAC [...]. Fleming chegou à doca de hidroaviões de La Guardia, em Nova Iorque, na tarde de 25 de maio de 1941. Fleming e o seu dirigente, o almirante John Godfrey - que viria a ser, em parte, a inspiração para a personagem ficcional M nos romances da série Bond [...].
«Durante uma visita a Tânger, Fleming exibira alguns dos traços de teatralidade de James Bond ao alugar uma avioneta privada para poder regressar a Lisboa o mais depressa possível. Os seus relatórios de serviço revelam que apresentou cento e dez libras de despesa relativa ao uso dessa avioneta. [...]
«Na sua segunda noite no Estoril, Fleming e Godfrey passaram o seu tempo no casino, que estava invulgarmente sossegado e onde Fleming jogou à mesa apostando montantes relativamente modestos e perdeu. Quando estava prestes a sair do casino, virou-se alegadamente para Godfrey e disse algo como: e se aqueles homens sentados à mesa do jogo fossem agentes alemães e lhes tivéssemos ganho o dinheiro? Crê-se que esse incidente serviu de inspiração a uma cena do primeiro romance da série James Bond, Casino Royale, na qual Bond faz justamente isso ao malvado espião comunista Le Chiffre.»
Neill Lochery - Lisboa: a Guerra nas sombras da cidade da luz, 1939-1945. Barcarena: Presença, 2012, p. 145-146

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

OO7, licença para beber


A Bollinger é a marca de champanhe do mais famoso espião do mundo, desde 1973 no cinema e 1956 nos livros de Ian Fleming. Este é o coffret 002, com a forma de um silenciador de uma Walther PPK e contendo o millésime 2002.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Dezembro de 1969

On her Majesty’s Secret Service, a única película deste agente único com passagem por terras portuguesas, estreou-se em Dezembro de 1969, mais precisamente no Odeon Theatre do Leicester Square londrino a 18 de Dezembro desse ano. A expectativa era naturalmente enorme, pois todas as atenções se concentravam no novo protagonista de James Bond, o australiano George Lazenby – um desafio pouco invejável após as cinco aparições lendárias do antecessor escocês Connery.

Menor foi o desafio que 007, eternamente ao serviço de Sua Majestade e do mundo inteiro, enfrentou nesta narrativa: o vilão Blofeld (Telly Savalas), na sua loucura e ambição desmesuradas, ameaça esterilizar quaisquer seres humanos e não humanos do nosso planeta através de um vírus. Seu laboratório encontra-se nos Alpes suíços, parece-se com uma fortaleza de luxo e retém uma dúzia de beldades femininas que, sem qualquer noção da verdadeira intenção de Blofeld, servem os interesses deste malandro. A Bond, disfarçado de genealogista, é concedido o difícil acesso às instalações. No entanto, Blofeld descobre a identidade de 007 e dispara uma maquinaria impressionante de perseguição: até avalanches são postas em queda para atingir Bond e sua noiva, a condessa Teresa (Tracy) di Vicenzo (Diana Rigg), que tentam, de ski, escapar às terríveis quantidades de neve...

On her Majesty's Secret Service continua, indevidamente a meu ver, sob um estigma de inferioridade em comparação com outras adaptações cinematográficas do personagem criado por Ian Fleming, provavelmente devido à performance de Lazenby, que muito dificilmente poderia estar à altura do desempenho de Sean Connery. Contudo, esta película prima por um conjunto de particularidades: À luz dos padrões de 1969, as cenas de acção são brilhantes. O realizador Peter Hunt, colaborador imprescíndivel nos filmes anteriores de Bond, recorreu nas filmagens a Willy Bogner, um dos atletas de ski mais conhecidos da década de 60 (e um dos estilistas de moda mais conceituados hoje em dia).

Vemos ainda um James Bond verdadeiramene apaixonado e disposto a casar. Miss Moneypenny assiste às bodas com lágrimas nos olhos... Comovida? Ciumenta? Frustrada? Never mind. Lamentavelmente, o matrimónio com Tracy encara um fim trágico (penso que a cena final ocorre algures na Serra da Arrábida, talvez os estimados leitores o possam confirmar).

Imagem: LIFE, Time Inc.
E por fim, o contraste dos cenários: a região à volta de Berna, com as suas belas localidades cobertas de neve num ambiente natalício (Savalas deseja um Merry Christmas a Bond), em oposição às magníficas imagens de sol em Portugal: vários são os pontos de referência, bem familiares ao espectador português: entre eles, o Guincho que serve de cenário, um pouco sinistro, para a tentativa de suicídio de Tracy, a ponte sobre o Tejo (ainda recente naquela época...), o distinto Hotel Palácio no Estoril, a Loja das Meias no Rossio (ainda se recordam?) e uma ourivesaria logo ao pé que, felizmente, ainda existe...

Para rever imagens de 1969, também captadas em Lisboa, segue um pequeno trailer deste filme, enriquecido pelo tema principal We have all the time in the world, interpretado por Louis Armstrong.
Enjoy!



quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Aquisições recentes - 4 : OO7 FLEMING -Ensaio sobre a Imortalidade


José António Barreiros é um dos maiores advogados criminalistas portugueses, como o saberão certamente os mais atentos ao mundo judiciário luso. Além dessa brilhante carreira, Barreiros é também um homem de letras que já publicou romances históricos e outras ficções.
Desta vez, voltou-se para James Bond, a genial criação de Ian Fleming, e sob a forma de ensaio que aborda a vida de Fleming ( como é sabido foi agente secreto) e o ciclo bondiano.
Deparei-me com este livro há cerca de um mês(?), pelo menos lembro-me que foi mais ou menos por ocasião da estreia de Quantum of Solace, o mais recente filme de Bond, li o suficiente e decidi comprá-lo. Infelizmente, ainda não tive ocasião para o ler na íntegra.
OO7 FLEMING- Ensaio sobre a Imortalidade, José António Barreiros, ilustrações de Abel Agostinho, o mundo em gavetas, 2008.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

LOTTE LENYA


Muitas são as iniciativas que comemoram o centenário do nascimento de Ian Fleming este ano. A efeméride passou naturalmente também por Portugal. Ainda no passado dia 28 de Maio, teve lugar uma conferência organizada pela Câmara Municipal de Cascais que evocou a passagem de Fleming pelo Estoril em 1941.

Há precisamente 45 anos, Terence Young realizava o segundo filme baseado na obra literária de Fleming, From Russia with Love (007 – Ordem para matar). James Bond (Sean Connery) combatia, ao lado da agente russa Tatiana Romanova (Daniela Bianchi), a organização S.P.E.C.T.R.E. A película terminaria em Veneza ao som da banda sonora, cantada pela bela voz de Matt Monro. Connery e Bianchi , numa góndola, estariam finalmente salvos de todos os perigos e vilões da fita – o último na pessoa da agente do KGB, Rosa Klebb, interpretada por uma das mais interessantes e misteriosas actrizes e cantoras do século passado, Lotte Lenya.
Lotte Lenya (Karoline Wilhelmine Charlotte Blamauer) nasce num subúrbio de Viena a 18 de Outubro de 1898. A infância e juventude são difíceis. O pai é alcoólico e violento para com a mãe e a pequena “Linerl”. Segundo algumas biografias, Lotte ter-se-á prostituido a partir dos seus 14 anos para assim sustentar a sua família. O seu destino muda, e para melhor, quando visita pela primeira vez a Suíça juntamente com uma tia. Adquire as suas primeiras experiências como bailarina e actriz em Zurique onde, no teatro Schauspielhaus, encontra Elisabeth Bergner, um dos grandes nomes do teatro e cinema alemães. Lenya, assim recordava Bergner, estava sempre na companhia de militares e “os boatos acerca da sua lascívia eram enormes”. Era no entanto bem disposta por natureza. “À volta dela, havia sempre uma aura do proibido. Tudo nela era muito interessante!”

Em 1924, conhece Kurt Weill em Berlim. Casa com o compositor em Janeiro de 1926. O matrimónio rege-se por abertura, tanto Kurt como Lotte vivem assumidamente relações extraconjugais. Weill trabalha com Bert Brecht, nasce a primeira obra em palco, a peça “Ascensão e queda da cidade de Mahagony” em que Lenya desempenha um pequeno, mas importante papel. A 31 de Agosto de 1928, estreia em Berlim “A ópera dos três vinténs”. Adaptada à Beggar´s opera de John Gray, torna-se um enorme êxito em Berlim. E eis a primeira artista a interpretar o papel da Spelunkenjenny (A Jenny da espelunca) – Lotte Lenya.

Weill descreve a sua mulher como “doméstica miserável, mas muito boa actriz. Não sabe ler uma pauta, mas quando canta, a atenção do público é como se fosse um Caruso a cantar.”

A 30 de Janeiro de 1933, Hitler sobe ao poder. “A ópera dos três vinténs”, imoral à luz dos novos padrões, é retirada do cartaz. O “triunvirato” Weill-Brecht-Lenya emigra para os Estados Unidos após uma breve passagem por França.

Weill, de origem judia, inicia uma nova carreira. Rapidamente apercebe-se de que o mercado norte-americano é propício a uma renovação do género operático. Gershwin tinha composto em 1935 “Porgy and Bess”, uma das primeiras “óperas americanas”. Com o seu falecimento prématuro em 1937, poucos são no entanto os compositores americanos que seguem a tentativa de fundir uma música ligeira de nível superior com elementos do jazz. Weill é requisitado para a Broadway, trabalha incessantemente até triunfar com Lady in the Dark em 1941.

E Lotte? Separada alguns meses do marido, divorcia-se de Weill em 1933 para, quatro anos mais tarde, voltar a casar com ele. Poucos são os convites para poder actuar em Nova Iorque.

A morte de Weill a 3 de Abril de 1950 marca profundamente Lotte. Entra em litígio com Brecht e Helene Weigel, esposa de Brecht, que reclamam os direitos de autor das obras criadas com Weill. Continua a viver nos Estados Unidos onde é convidada, mais uma vez, a cantar a Jenny da "Ópera dos três vinténs": a partir de 1954 e durante quase sete anos, a peça sobe 2707 vezes ao palco. Lotte Lenya torna-se finalmente conhecida, por esforço e mérito próprios. Recebe o Tony Award em 1956.

Hollywood descobre Lenya nos anos 60. Ao lado de Vivien Leigh, representa em 1961 a Condessa Magda Terribili-Gonzales na adaptação cinematográfica de The roman spring of Mrs. Stone de T. Williams. É nomeada para o Óscar de melhor actriz secundária. Outras passagens pelo grande écran mostram Lenya na já referida agente sádica Rosa Klebb em From Russia with Love (1963) ou no papel de Emma Valadier no filme The Appointment (1969) ao lado de Omar Sharif e Anouk Aimée.

Ao mesmo tempo, Lenya continua a divulgar a obra de Weill e Brecht em várias digressões pela Europa. A sua “Mãe Coragem” no festival Ruhrfestspiele na Alemanha em 1965 é lendária.

Após a morte de Weill, Lenya casou ainda três vezes (George Davis, Russell Detweiller e Richard Siemanowski).
Faleceu a 27 de Novembro de 1981 em Nova Iorque. Seu último repouso encontra-se num mausoléu em Mount Repose Cemetery (Nova Iorque) ao lado de Kurt Weill.