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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

É por ti que vivo


Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama 
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata 

Se guardo algum tesouro não o prendo 
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar 

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura 
de um pomar de brancas cortesias 
porque é por ti que vivo é por ti que nasço 
porque amo o ouro vivo do teu rosto

António Ramos Rosa (que faria hoje 100 anos)

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Marcadores de livros - 2999

Dois escritores nascidos há 100 anos:



Linha da Frente é uma banda composta por músicos vindos de outras bandas:  João Aguardela, Luís Varatojo, Viviane, Dora Fidalgo, Janelo, Prince Wadada e Rui Duarte.


Versos e reversos de dois marcadores.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

"País de Pedra"


Flor que plantei em Setembro, é uma flor fora do seu tempo.




Meu país de palavras. País de pedra. Que atravesso, país que treme, hesita, rompe. Nu. Vivo. Pobre.

António Ramos Rosa, Respirar a sombra viva. Lisboa: Plátano, 1975, p. 169.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Parabéns, Jad!

Um dia muito feliz e muitos anos de vida!

... comme c'est l'oeil, à la fenêtre, 
devant la mer, devant le ciel, à la fenêtre,
contre l'air d'été, le soir...

Beckett 
(s/nº página in, António Ramos Rosa, Respirar a sombra viva)

Gerrit Dou (1613-1675), Detalhe de Homem a fumar cachimbo, c. 1650.
Rijksmuseum 
Uma tela que usa a magia da ilusão.

Neste chão
onde passam as palavras
se brilham
- de quem são?

António Ramos Rosa, "A Boca do Corpo" in Respirar a sombra viva. Lisboa: Plátano, 1975, p. 175.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Um poeta escreve sobre outro poeta

Leiria: Ed. Diferença, 1998

Um livro que reúne textos críticos que João Rui de Sousa dedicou à obra de Ramos Rosa, desde Viagem através duma nebulosa (1960) até Figuras solares (1996). Muito útil - se assim posso dizer - para melhor entender a poesia de António Ramos Rosa.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Nos teus olhos de silêncio

Lisboa: Dom Quixote, 1970
Capa de Fernando Felgueiras

Foi este o primeiro livro que li de Ramos Rosa.

ONDE É AQUI

Onde é aqui,
o centro,
onde se respira, 
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
Onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
Respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.

Onde é aqui,
a fome nua, a árvore exata
ao centro
da alegria,
a luz e o olhar
abeto ao mar.

Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.

(p. 29-30)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Nascimento último

Junto-me à homenagem de MR a Ramos Rosa.

Árvore, Hermitage, Amesterdão

Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa, No Calcanhar do Vento - 1987, in Antologia Poética
Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes

ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)

Foto de Jorge Trabulo Marques



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Balança

Balança
incandescente
que pesas desde o fundo
o corpo vulnerável
com o seu abismo
e a sua pureza,
nenhuma mão te segura,
obstinada.

António Ramos Rosa
In: Estrias. Lisboa: Átrio, 1990, p. 10

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O mundo...

Robert Delaunay - Ritmo: Alegria de viver

«Le monde et moi se constituent corrélativement et se structurent réciproquement.»
Mucchielli (1919-1981)

Li esta citação como epígrafe num livro de Ramos Rosa.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sábado, 4 de dezembro de 2010

Jardins - 8


Constant Dutilleux (1807-1865) - Pins et bouleaux [Fontainebleau], 1855
Paris, Museu do Louvre

Dizem que é jardim
porque repousa

E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas

Mas que dizer da trama
em movimento?

Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha

António Ramos Rosa
De O incerto exacto (1982)
In: A mão de água e a mão de fogo. Coimbra: Fora do Texto, 1987, p. 191

domingo, 17 de outubro de 2010

Não posso adiar o coração


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

Volto a colocar no Prosimetron este poema, que é um dos meus preferidos.

A festa do silêncio



Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa
De Volante Verde (1986). In: A mão de água e a mão de fogo. Coimbra: Fora do Texto, 1987, p. 231

Depois de ter visto no Arpose que António Ramos Rosa faz hoje 86 anos. Parabéns!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

As estradas leves

Um deus que brinca e que nada quer,
que sonha ou canta, é ele próprio um sonho
que na areia cintila. Fogo ou desejo,
menino que corre no vento entre estrelas verdes,
a mão ondula e quase escreve e quase dança,
e na violência azul incendeia e apaga
as estradas leves suspensas sobre o abismo.

António Ramos Rosa
In: Acordes. Lisboa: Quetzal, 1990, p. 33

domingo, 26 de abril de 2009

LIBERDADE É O TEU NOME

Eu não poderia conceber-te
se fosse um homem só
no meu deserto
se não desse um passo para um outro
se não o ouvisse no meu silêncio
respirar
se eu não quisesse ser o outro
entre os meus ombros
se não pudesse reconhecer
que o outro era eu o outro
que falava com este e com aquele
o outro com todos os outros
o outro que eram todos como um só
que não estava só em todos
e eras tu na liberdade de outra vida
a liberdade que respirava em todos nós
eras tu era por ti sob a asfixia
que eu e todos te reconhecíamos
nos reconhecíamos
eras tu ainda sem podermos hastear a tua bandeira
sem podermos gritar o teu nome
abertamente na alegria da vitória
eras tu em nós através das fronteiras e dos muros
que respiravas em nós
era por ti por todos nós que nós lutávamos

António Ramos Rosa
In: Na liberdade: antologia poética: 30 anos-25 de Abril. Peso da Régua: Garça, 2004, p. 45

terça-feira, 3 de março de 2009

O Grito Claro de Ramos Rosa!

Hoje, recebi esta jóia, deixo no "Grito Claro" o meu obrigada.

O grito claro
De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
de um grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro

António Ramos Rosa, A Palavra e o Lugar, Lisboa: Dom Quixote, 1977, p.17