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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Pensamento ( s )
Sempre a frase de São Tomás de Aquino, que Maria Filomena Molder comenta num ensaio : « É preferível um anjo e uma pedra que dois anjos. »
Uma interpretação : entre a variedade e o homogénio, a variedade.
No limite, poder-se-ia dizer que é preferível existirem no mundo um anjo e um demónio do que existirem dois anjos.
O que é estranho é que todos os fundamentalistas poderiam dizer a frase : é preferível dois anjos!
Os fundamentalistas querem converter todos os seres humanos em anjos; e são eles que definem o que é um anjo. O desejo de uma sociedade uniforme, eis o que devemos recear. (...)
- Gonçalo M.Tavares, na Visão da passada semana .
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
PENSAMENTO(S) - 214
Nicolas Poussin, Et in Arcadia ego/Les bergers d'Arcadie, 1637-38, óleo sobre tela, Louvre. ( O segundo quadro de Poussin, e mais conhecido, com o mesmo título. E o mais belo e enigmático. Uma das poucas reproduções que tenho em casa. )
O PODER DAS IMAGENS
Há quem veja a dor como uma enxurrada e há quem a veja como um dique ( ambas já citadas ). É muito mais usual a primeira imagem. As duas imagens não são equivalentes e os pontos de vista que as engendram não coincidem. Na primeira, vemos a dor como força que se despenha sobre a vida, que arrasta a vida; na segunda, a alegria é uma corrente que inunda. Na verdade, não podemos ser inundados, banhados, inebriados pela dor. Isso é coisa da alegria.
Surpreendemos uma espécie de equivalência desta desproporção na tradução incorrecta de Et in Arcadia ego- comum a partir do séc.XVIII-, que subverte inteiramente o elemento elegíaco. Em vez de « também na Arcádia, na terra onde escorre o leite e o mel, eu, a morte, continuo a ferir os mortais», temos: « Também eu, que vou morrer, conheci a alegria» ( Goethe escolheu a expressão para epígrafe da primeira edição da Viagem a Itália ). Trata-se da diferença entre considerar que a felicidade está sempre ameaçada pela voracidade da morte e considerar que o horror da morte não pode apagar a felicidade que se viveu. Sobretudo se foi guardada num « vaso de alegria ».
- Maria Filomena Molder, in Sobre a Alegria - À memória de Olímpio Ferreira, na Intervalo #4, Fevereiro de 2010.
O PODER DAS IMAGENS
Há quem veja a dor como uma enxurrada e há quem a veja como um dique ( ambas já citadas ). É muito mais usual a primeira imagem. As duas imagens não são equivalentes e os pontos de vista que as engendram não coincidem. Na primeira, vemos a dor como força que se despenha sobre a vida, que arrasta a vida; na segunda, a alegria é uma corrente que inunda. Na verdade, não podemos ser inundados, banhados, inebriados pela dor. Isso é coisa da alegria.
Surpreendemos uma espécie de equivalência desta desproporção na tradução incorrecta de Et in Arcadia ego- comum a partir do séc.XVIII-, que subverte inteiramente o elemento elegíaco. Em vez de « também na Arcádia, na terra onde escorre o leite e o mel, eu, a morte, continuo a ferir os mortais», temos: « Também eu, que vou morrer, conheci a alegria» ( Goethe escolheu a expressão para epígrafe da primeira edição da Viagem a Itália ). Trata-se da diferença entre considerar que a felicidade está sempre ameaçada pela voracidade da morte e considerar que o horror da morte não pode apagar a felicidade que se viveu. Sobretudo se foi guardada num « vaso de alegria ».
- Maria Filomena Molder, in Sobre a Alegria - À memória de Olímpio Ferreira, na Intervalo #4, Fevereiro de 2010.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
PENSAMENTO(S) - 211
7ª FORMA DE ALEGRIA : MEMENTO VIVERE!
O dia de amanhã, o dia do nosso medo, da nossa previdência, o dia da formiga, é um dia da prudência que não convém idolatrar ( haverá outro dia de amanhã, o da herança, mas o seu uso não vem agora ao caso ), pois impede o estar diante dos agoras, uma sombra que não deixa ver o risco que nos cabe por estarmos vivos. Nestes tempos que correm, o mais grave dos esquecimentos, pois só aprofundando o risco podemos salvar-nos ( é em Thoreau e a Bernanos que Clarice Lispector vai alicerçar a sua compreensão ). Ainda mais que um esquecimento, um irreconhecimento combativo: a luta cega pela segurança. O carácter anestesiador dessa luta observa-se no viver como se houvesse outra vida para viver, fazendo soar a cantilena do diabo: adia, adia...
Ora, diz Clarice: " A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã "- ecoando o carpe diem de Horácio e a exigência goethiana de fazer jus ao dia, no sentido de " não te esqueças de viver! " ( mote de um maravilhoso livro de Pierre Hadot ) - o que se prolonga na aceitação de que há um tempo para cada coisa, para cada nascimento, sejam rosas ou morangos: " Sentia que havia um tempo inadiável correspondente a cada momento[...] Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir ".
- Maria Filomena Molder, in Sobre a Alegria, Á memória de Olímpio Ferreira, na INTERVALO #4, Fevereiro de 2010.
Meu caro MLV: Gosto muito deste fragmento da Prof.Molder e das injunções nele contidas: agarra os dias da tua juventude! ( é este o sentido completo do famoso carpe diem! de Horácio ), não te esqueças de viver! e não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã da Clarice Lispector.
Parecem-me excelentes conselhos, para ti, para mim, para todos os que vivem.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Dia Mundial do Doente
Neste Dia Mundial do Doente, um quadro ( A criança doente, de Edvard Munch, 1907, óleo sobre tela, sendo que esta tela da Tate Gallery de Londres é a quarta variação sobre o mesmo tema. A inspiração foi a irmã mais velha e preferida de Munch, Sophie, que faleceu aos 15 anos vítima de tuberculose. ) e um texto:(...) O que aprende o doente com a dor, com o medo? A grande dificuldade para aquele que está doente e que sofre, é não estar autorizado a ser ferido por si próprio- e só esta afecção o poderá aliviar-, i.e., a sonhar, a ter visões, a evadir-se: os tratamentos quase sempre não o permitem. Na verdade, a cura só pode vir do som da voz e não do sentido da voz. Essa voz terá de saber, e fazer ressoar em si, que estar doente é uma das iniciações mais decisivas e terríveis à nossa vida, conhecer o que é perder o seu sangue, sem conhecer a causa, não no sentido da etiologia mas do estandarte que está em jogo, sacrifício que põe à prova e prova que qualquer um só se pertence a si próprio, que o homem por essência pertence-se.
Rainer Maria Rilke pede-nos que aceitemos que a dor é o nosso fundo, a nossa paisagem. Quando se sente o fundo que é a dor, diz ele, então os homens sentam-se diante dela, ela que está atrás deles, as estrelas caem e demoram-se no silêncio. A dor, o fundo que é a dor, murmura, rumoreja por cima deles como uma floresta. E eles estão perto uns dos outros como nunca estiveram. A dor é nosso fundo, é ela que nos obriga a procurar auxílio, a caminhar ao lado de alguém (...)
- Maria Filomena Molder, Princípios de Método. 4, in A Imperfeição da Filosofia, Relógio D'Água, 2003.
sábado, 14 de março de 2009
Dia 19 na Fnac Chiado
O livro Paisagens dos Confins,organizado por Maria Filomena Molder, e que reúne os textos da homenagem realizada em 2007 na FCSH da Nova a Fernando Gil, bem como um inédito deste- Objecto e objectividade, e ainda um texto sobre a sua obra filosófica, é lançado dia 19 , às 19h, na Fnac Chiado.A obra será apresentada por João Lobo Antunes e Danièle Cohn.
- Paisagens dos confins, AAVV, org.Maria Filomena Molder, Vendaval, 2009.
Uma nota pessoal: Estive presente aquando da homenagem feita em Outubro de 2007 na Universidade Nova de Lisboa e foi entusiasmante verificar como Fernando Gil marcou as vidas de tantos filósofos portugueses, de várias gerações e vários ramos da disciplina. É realmente um nome incontornável na Filosofia em Portugal.
sábado, 8 de novembro de 2008
A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA - 5
" (...) É neste sentido que não se pode confundir uma experiência autêntica com aquisição informativa. Valoriza-se, então, o imediato, o contacto de onde nasce a expressão, considerando a multiplicação de intermediários como sinal de endurecimento, de esclerose, de insensibilidade, numa época em que as mediações progridem na sua vigência universal, multiplicando-se e dissimulando-se sob as imagens da imediatez, como sempre os espectros, enviados da morte, fizeram por relação à vida. Hofmannsthal, como Goethe, um século antes, exige que se reconheça de novo ao espírito o direito de se colocar imediatamente diante das coisas.
Sendo assim, trata-se de fazer a apologia do «estar de fora» , da «inactualidade» , sem permitir que a resistência ao presente seja convertida em propósito nihilista ou em solipsismo auto-suficiente. Isso parece-me ser próprio daquele que se dedica à filosofia: distanciar-se, procurar por si próprio, tentar desvendar os enigmas que encontra. Aqui, o perigo reside em embriagar-se com esse distanciamento e conhecer apenas a forma heróica dolorosa, que é reconhecível em Platão, mas que só em Nietzsche encontrou o único representante fiel. Para vencer esse perigo, teremos , então, de chamar em nosso auxílio a mais antiga tentativa de superação dessa procura solitária: a experiência do eros. "
- Maria Filomena Molder, Apologia da inadaptação-5, in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA, Relógio D'Água Editores, 2003.
Sendo assim, trata-se de fazer a apologia do «estar de fora» , da «inactualidade» , sem permitir que a resistência ao presente seja convertida em propósito nihilista ou em solipsismo auto-suficiente. Isso parece-me ser próprio daquele que se dedica à filosofia: distanciar-se, procurar por si próprio, tentar desvendar os enigmas que encontra. Aqui, o perigo reside em embriagar-se com esse distanciamento e conhecer apenas a forma heróica dolorosa, que é reconhecível em Platão, mas que só em Nietzsche encontrou o único representante fiel. Para vencer esse perigo, teremos , então, de chamar em nosso auxílio a mais antiga tentativa de superação dessa procura solitária: a experiência do eros. "
- Maria Filomena Molder, Apologia da inadaptação-5, in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA, Relógio D'Água Editores, 2003.
domingo, 2 de novembro de 2008
A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA - 4
"(...) Haverá algum antídoto contra a dor e a morte? Nenhuma teoria, nenhuma construção, nenhum modelo, permitirão vislumbrá-lo, só no modo como cada um vê a vida, no aspecto que a vida tem, nas escolha das imagens em que a vida se recolhe, esse antídoto poderá encontrar asilo. O que são essas imagens? Experiências da nossa vida que se coagulam em visões e figuras, e tendem a fixar-se em conceitos: viagem, deserto, jardim, casa, sonho, sede, prisão, jogo, máscara. Cada uma dessas imagens é uma lâmina de dois gumes, que exprime dois sentimentos cujo litígio, insondável, não conhece termo: aceitar a vida e recusar a vida, e à sombra disto aparecem o dom, a dívida, o pagamento da dívida, o equilíbrio, a justiça, o sacrifício, o rito que o repete, a história que contamos acerca da nossa vida: salvar-se, perder-se, ressuscitar, renascer. E também aparecem os conceitos de indivíduo, de eu, de isto, de centro, de si próprio. O que é que se encontra quando procuramos por nós próprios? O mistério e o enigma, o oculto e o manifesto, a ultrapassagem dos limites e a adaptação aos limites. Os deuses e a aparência: alegria, jogo, dizer sim, exercitar-se na morte, o exemplo de Montaigne.
Diz Epicuro: a morte não nos diz respeito, uma vez que, enquanto formos, ela não é, e logo que ela entra em cena, nós já não estamos. Declaração que é para sempre válida e, no entanto, como tão bem nos mostrou Jean Amery, ele de novo, absolutamente oca para aquele que tem de se haver com a morte. Trata-se, como em tantos casos gritantes, de uma falsa evidência. (...) "
- Maria Filomena Molder, Princípios de método-5, in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA,
Relógio D'Água Editores, 2003.
Dedicado a J., numa ocasião que é a que mais temo e mais quero ver adiada.
Diz Epicuro: a morte não nos diz respeito, uma vez que, enquanto formos, ela não é, e logo que ela entra em cena, nós já não estamos. Declaração que é para sempre válida e, no entanto, como tão bem nos mostrou Jean Amery, ele de novo, absolutamente oca para aquele que tem de se haver com a morte. Trata-se, como em tantos casos gritantes, de uma falsa evidência. (...) "
- Maria Filomena Molder, Princípios de método-5, in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA,
Relógio D'Água Editores, 2003.
Dedicado a J., numa ocasião que é a que mais temo e mais quero ver adiada.
domingo, 12 de outubro de 2008
A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA - 3
" (...) Mistério e enigma, um revela-se e comunica-se, o outro decifra-se. Um mistério não pode ser analisado, mas comunicado. Um enigma pode ser analisado. Um mistério, que se comunica como um segredo, é uma coisa que alguém sabe ou chega a saber por contacto ou iniciação, e que pode ser comunicado (podendo haver restrições regradas quanto à extensão dessa comunicação, quando o segredo pertence a uma associação de iniciados, por exemplo, os mistérios de Elêusis).Um enigma é uma dificuldade que se apresenta resolvida sob a forma de adivinha e, portanto, a chave da resolução não é oferecida exteriormente à própria dificuldade ( quem depara com um enigma, sabe que a sua chave está guardada no próprio enigma) . Um enigma é uma forma de compreensão que se apresenta sob o aspecto de desafio, em que se pode perder ou ganhar ( o enigma da esfinge, por exemplo) . O mistério diz respeito a qualquer coisa que se sabe ( tem a ver com uma narrativa e uma visão, e não com uma forma de conceptualização cifrada, que é a terra de origem do enigma) . O mistério, o segredo, não é uma compreensão, mas o reconhecimento de um facto revelador do que é vivo ou foi vivo, uma visão que transcende o equilíbrio ou a ordem correntes, obrigando a regras de comunicação. É insuportável saber um segredo e guardá-lo para si próprio ( um dos exemplos populares mais eloquentes é a história do príncipe de orelhas de burro ) , tem de haver maneira de o revelar a alguém.
No corpo vivo, no corpo que nasce, no corpo que se eleva e cai, percebemos reunidos o mistério e o enigma, percebemos um silêncio por decifrar, vozes ocultas à espera de interpretação, vemos um segredo que se abre, um segredo à espera de um vaso comunicante, sedento de pertencer a alguém.
Os versos da Nau Catrineta brilham. "
- Maria Filomena Molder, Princípios de método-2 , in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA, Relógio D'Água Editores, 2003, p. 109-110.
sábado, 5 de julho de 2008
A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA - 2
" (...) O ritual da caixa no filme Dune de David Lynch oferece-nos deste sofrer por ser, sofrer por conhecer-se como carne, desta resistência da carne a ser apenas carne, uma percepção terrível e exaltante : o jovem eleito coloca a mão direita, por uma abertura lateral, dentro de uma caixa, sabendo que o que está lá dentro se chama dor. A pouco e pouco sente uma ligeira comichão, que se torna cada vez mais insuportável até se transformar em sensação de queimadura, primeiro vê a sua pele a crestar, depois vê bocados da mão a cair. Visões da dor que ele experimenta e que terá de vencer, se não será ela a vitimá-lo. E isso é o que o corpo não deseja e é isso o que o corpo mais teme, e por isso o nihilismo ronda infalivelmente - e por isso sejam louvados os que resistem ao seu império - aqueles que estudam a nossa carne . "
- Maria Filomena Molder, Princípios de método-1 , in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA , Relógio D'Água Editores, 2003, 107.
- Maria Filomena Molder, Princípios de método-1 , in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA , Relógio D'Água Editores, 2003, 107.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA - 1
" (...) Sendo necessário, para que o pensamento não se arruine, que a cada nome corresponda uma coisa, que cada nome signifique uma coisa - no caso de significar várias, deve explicar-se a qual delas nos estamos a referir - , a que coisa corresponde o nome « homem » ? Entre os Gregos, e em particular para Aristóteles, a palavra « homem » correspondia a várias coisas, todas procurando-se recíprocamente : o homem é um vivo, um animal, que tem a vocação de falar e de pensar, e é um vivo que tem a vocação de viver entre iguais , procurando o seu bem comum, entre os mais próximos, os amigos, e, entre os menos próximos, a associação política. Mas também é aquele que se sabe sujeito à morte, aquele que tem a antecipação de uma experiência que não pode ser transformada nem em representação nem em argumento.
Esta última determinação é a que interroga as outras, é a ela que a medida, a proporção, está prometida. (...) "
- Maria Filomena Molder , Querer dizer , in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA , Relógio D'Água Editores, 2003 , 42-43 .
Esta última determinação é a que interroga as outras, é a ela que a medida, a proporção, está prometida. (...) "
- Maria Filomena Molder , Querer dizer , in A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA , Relógio D'Água Editores, 2003 , 42-43 .
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