Prosimetron

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Duas músicas para Eduardo Lourenço

 



«O que eu sou como ser mortal (o que todos somos), está contido na melancolia absoluta do allegretto da Sétima Sinfonia. Mas o que desejaria ser, o que não tenho coragem de ser, só se revela nesta Suite em Si Menor, de Bach. Diante desta torrente luminosa devia depor a minha velha pele, esta pele de que só a música me despe num instante, deixando-me nu e redimido, mas que no instante seguinte afogo em trevas. Delas só um Deus me poderia libertar. Digo Deus sabendo bem que esse absoluto que me atrevo a invocar é ainda o supremo álibi. É de mim, das ardentes seduções do meu profundo ser, que não quero ou de que não sou capaz de abdicar. Queria ir por um caminho de rosas para aquele sítio onde sei que me foi fixado encontro. E ninguém lá chega nunca sem antes morrer para si mesmo.» 
Eduardo Lourenço num livro a ler:

Lisboa: Gradiva. 2017

3 comentários:

APS disse...

O allegretto da sétima sempre foi uma referência de sensibilidade. Ao morrer, Pio XII pediu para ouvi-lo...
O que restava do pensar em Portugal quase se apagou de todo com a morte de Eduardo Lourenço.

Maria disse...

Não sabia.
Que tenha conseguido ir por um caminho de rosas... e repouse para sempre num "bed of roses".

A Sétima sempre foi a minha preferida, sempre me comoveu imenso ouvi-la.
Ainda a pensar no dia de ontem, relembro o livro Pessoa Revisitado.

🌸

MR disse...

Acho que Eduardo Lourenço teve uma boa vida, apesar de ter sido obrigado a emigrar. E teve reconhecimento, o que nem sempre acontece.
Há pessoas que pedem para que lhes seja tocada música no enterro. Tenho dois amigos que têm esse desejo: um quer Mascagni; a outra quer bossa nova.
Estive a ler uma biografia, de que falarei amanhã, em que o biografado tb escolheu uma música para a sua cremação. Amanhã saberão qual foi.
Bom dia para os dois.