Prosimetron

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sábado, 9 de janeiro de 2010

A.S.: Escolhas Pessoais XIII

Sophia Andresen



O tom da sua obra é quase sempre imperativo e o pensamento geométrico, clássico na influência. As dúvidas, se as encontramos, são, sobretudo, quando o discurso é um discurso amoroso, de veemência apaixonada, mas sem sentimentalismos excessivos. Puro e duro. Não há meias medidas na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), poucas disjuntivas nos seus versos, poucas alternativas hesitantes.

“A Conquista de Cacela

As praças fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas
As cidades do mar pela riqueza
Porém Cacela
Foi desejada só pela beleza”


A exigência ética e um certo dramatismo atravessam muitos dos seus poemas, em que, nalguns casos, espreita uma ironia seca e cortante, certeira e desapiedada:

“As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas…”


Um dos poemas, que mais aprecio de Sophia Andresen, tem como base uma “falsa” história. Intitula-se “Meditação do Duque de Gandia sobre a Morte de Isabel de Portugal” e a frase (“Nunca mais servirei senhor que possa morrer”) corre atribuída a Francisco de Borja e Aragão (1510-1572), Duque de Gandia, que depois de enviuvar, professou e veio a ser Superior Geral dos Jesuítas. A célebre frase estava, na verdade, integrada na oração fúnebre, feita por S. João de Ávila, no funeral de Isabel de Portugal (1503-1539), esposa de Carlos V, e mãe do futuro rei de Portugal, Filipe I (II de Espanha). Não é, portanto, do Duque de Gandia. A ficção, no entanto, é, por vezes, bem mais interessante do que a prosaica realidade.


Ticiano - Isabel de Portugal
Óleo sobre tela
Madrid, Museu do Prado


Transcreve-se, então, o belo poema de Sophia Andresen:

“Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre.
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”


Post de Alberto Soares

5 comentários:

ana disse...

Belíssimo!
Obrigada.Também gosto muito dela.

JP disse...

Secundo. Tinha a lenda por verdadeira...

Anónimo disse...

Idem.
M.

Miss Tolstoi disse...

E já agora, eu também gostei.

contador antropomórfico disse...

No primeiro ano do ciclo preparatório tive um jovem professor de português que nos lia excertos de livros. Foi aí que ouvi pela primeira vez «A Menina do Mar» da Sophia, que começa assim:

«Casa Branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas»

Há um par de anos, durante as minhas compras semanais no hipermercado, num amontoado de promoções desvairadas, descobri este belíssimo livro e ainda «A Árvore», «O Rapaz de Bronze» e «o Cavaleiro da Dinamarca», numa edição da Figueirinhas. Comprei-os todos, julgava eu que por uma questão de nostalgia das aulas de português de um professor que nunca esqueci. Hoje, ao ler o que escreveu, percebi que há outras razões para eu guardar memória da escrita da Sophia.
Obrigado, mais uma vez.