Prosimetron

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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O lamento ... - Ícaro 1.

O Lamento por Ícaro, de Herbert Draper, foi um dos quadros que vi na Tate Britain que me encantou. As ninfas que rodeiam Ícaro lamentam a perda dele. Ícaro que o desejo de voar mais alto levou até ao Sol, acabaria por perecer ao derreter-se a cera das suas asas. A história de Ícaro, figura da mitologia grega, fascina-me.
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Herbert Draper, O Lamento por Ícaro, exibido em 1898
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Óleo sobre tela, 182,9 x 155,6 cm, Tate Britain, Londres
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Ícaro
A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.
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Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...
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Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:
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Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
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José Régio, Poemas de Deus e do Diabo, Lisboa: Quasi, 2005

8 comentários:

APS disse...

Ícaro é um tema recorrente na pintura e na literatura.
Lembrei-me de um quadro de Brueghel,o Velho,que está em Bruxelas: "Paysage avec la chute d'Icare".
Na pintura, Ícaro mal se vê,submerso,só uma parte das pernas
se adivinha. O quadro é tão singular que originou, pelo menos,dois poemas: a W.H.Auden ("Musée des Beaux Arts") e a William Carlos Williams ("Landscape
with the fall of Icarus".
Este que a Ana postou é mais linear,mas também é interessante.
Alberto Soares

ana disse...

Irei colocar o de Brueghel, o velho, já estava na lista, também gosto. Aliás, adoro este pintor.
Tem razão este é mais linear. Quanto aos poemas não os conheço irei procurá-los.
Obrigada pelas suas pistas que contribuem para o meu enriquecimento!
Ana

APS disse...

Há um poeta português cuja obra anda muito à volta de Ícaro. Dá pelo nome de António de Almeida
Mattos. E tem um poema de que eu
gosto muito. Vou partilhá-lo consigo:

"Altas paredes brancas me contornam

E eu invento longas madrugadas
Doiro colinas calmas espaçadas
e a dor de te matar cobre-as de neve/

Espero que também goste.

ana disse...

APS,
Gostei imenso e não conhecia.
Muito obrigada!
Ana

MR disse...

Alberto Soares,
Gosto muito de Auden. Vou tentar ler esse poema, de que me não lembro. William Carlos Williams conheço, mas muito mal.

MR disse...

Esqueci-me de dizer que gosto da poesia de António de Almeida Matos e gostei deste poema que escolheu. Há tempos, coloquei dois versos dele.

APS disse...

Ainda do António de Almeida Mattos,com "envoi", para MR e Ana
(e com Ícaro dentro):
"De cada grão de pele fazer um lábio/
em breve lume o gesto desenhado
de uma a mil a língua descobrindo
cada vitória exacta de um salgado
contorno se constrói a própria sede
na seara que esconde o sol de nada
ou ícaro suspenso revelando
que gota a gota as asas se desprendem/"

ana disse...

APS,
Belíssimo!
"na seara que esconde o sol de nada
ou ícaro suspenso revelando
que gota a gota as asas se desprendem/"

Merci beaucoup!
Ana