Prosimetron

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

[Na manhã de 5 de Outubro]

(Na manhã de 5 de Outubro de 1910 vim para a rua dar «Vivas à República» com uma bandeira encarnada e verde, feita de papel de seda, presa a um cabo de vassoura.)

A bandeira
(a palavra bandeira)
começou em mim
na pele arrancada para dar sangue ao destino
- e os olhos verdes de minha Mãe
a luzirem na infância,
ilhas de erva incendiada.
Manhã de sol fixo
com as ruas barricadas de olhos e bocas
e a minha bandeira de papel de seda
à frente do povo de espingarda às costas
na naturalidade de comandar sonhos nos poços.
Agora só faltava um passo,
apenas um passo,
para desenterrar o sol escondido no chão
que iluminava o silêncio contente dos mortos.

José Gomes Ferreira
In: Poesia - V. Lisboa: Portugália, 1973, p. 130

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